Por Adelmo Pinho
Por que tanta rivalidade entre times de futebol e na política? Por que aluno novato comumente é menosprezado pelos demais alunos do colégio? Por que a pessoa de outro bairro é sempre mais hostilizada (bairrismo)? Por que acolhemos melhor alguém de nossa convivência, do que outras pessoas? Por que a Alemanha nazista enxergava judeus como inimigos? Por que pobre é socialmente mais desprezado que o rico?
Todas essas indagações possuem uma genealogia comum: o pensamento nós-eles de nossa mente tribal. O psicólogo americano, Elliot Aronson, na obra conjunta com Joshua Aronson, “O animal social”, explica a origem de tudo isso. Segundo a psicologia evolucionista explorada nessa obra, nosso cérebro foi moldado pelos nossos ancestrais biológicos, os caçadores-coletores.
O fundamento é que nossas tendências, motivações e atitudes possuem raízes da época em que vivíamos em pequenos grupos de caçadores-coletores, lutando pela sobrevivência. O nosso viés egocêntrico também advém dessa ancestralidade.
Aronson cita nesse livro a teoria da identidade de Henri Tajfel, com o título “Human groups and social categories”. Nessa pesquisa esse estudioso revelou que dividimos as pessoas em grupos e, segundo ele, “nossa mente leva-nos automaticamente a exagerar as diferenças entre nós e eles, em lugar de perceber semelhanças”.
Isso comprova o porquê de sermos mais empáticos ao “julgar” membros do nosso grupo em detrimento de membros de outro grupo, explica Aronson. Este textualiza: “Por que discriminamos tão prontamente e tanto com base em tão pouca coisa? Porque isso está no nosso DNA. Para caçadores-coletores, compensa prestar atenção nas diferenças entre membros da própria tribo, que podem ser concorrentes, e forasteiros, que provavelmente serão atacantes ...”.
Há cientistas cognitivos, como Steven Sloman e Philip Fernbach, citados na mesma obra, afirmando que pensamos como grupo e não como indivíduos. O pensamento tribal é, portanto, natural, biológico, inclusive. Mas, ele (pensamento) pode ser mudado? Sobre essa indagação, Aronson afirma: “... podemos nos educar a corrigir esses impulsos automáticos embutidos que nos tratam como amigos e a eles como ameaças ...”.
Assim, em outras palavras, podemos evoluir e sair da tribo, já que somos seres pensantes. Dou aqui um exemplo dessa evolução humana que vivenciei esta semana ao chegar em São Paulo, dirigindo meu automóvel pela marginal Pinheiros. O trânsito parou e visualizei dezenas de motociclistas impedindo a passagem dos demais veículos.
Confesso, pensei tratar-se de assalto ... felizmente, era o contrário! Tais motociclistas prestavam ajuda ao motorista de um veículo avariado, levando o automóvel dele para o acostamento para evitar acidentes. Pelo contexto, os motociclistas não se conheciam e nem mesmo conheciam o condutor do veículo avariado.
Prevaleceu a empatia e a solidariedade, ou seja, uma atitude espontânea e boa. Isso é evolução! Não deve ser “nós e eles”. A evolução humana pressupõe unidade e não sectarismo. “Sejamos um”, ensinou Jesus, o Cristo (João, 21). Aceitar a teoria da “mente tribal”, por outro lado, é agir por impulso – sem reflexão -, permitindo que o “homem das cavernas” ou o seu tataravô (a) pense por você.
*Adelmo Pinho é articulista, cronista e membro da Academia de Letras de Penápolis e da Academia Araçatubense de Letras
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