Opinião

Bendita ignorância

"Em especial, nós brasileiros, só reconhecemos dois valores na vida: o dinheiro e a saúde (nesta ordem, pois, a maioria opta por perder a saúde para ganhar dinheiro)"
Da Redação
29/01/2024 às 15h50
Foto: Reprodução Foto: Reprodução

Por José Márcio Mantello

 

Há uma afirmação (quase um dito popular) de que a ignorância é o pior dos males da humanidade. Todavia, não penso assim. Na verdade, a ignorância pode ser a grande propulsora para a evolução de um ser humano, ou até mesmo, de toda uma civilização.

 

O malefício da ignorância reside em desejar permanecer nela, ou seja, na desistência da busca pelo conhecimento. Nesse sentido, a maioria esmagadora das pessoas, não enxerga a necessidade de vencer a ignorância. Em especial, nós brasileiros, só reconhecemos dois valores na vida: o dinheiro e a saúde (nesta ordem, pois, a maioria opta por perder a saúde para ganhar dinheiro).

 

Se falarmos da perda das liberdades ou mesmo da educação, quase ninguém se importará, porque são poucos que reconhecem tais valores.

 

Isso ganha uma dramaticidade maior quando, entre os bens humanos mais preciosos, o conhecimento, é aquele que menos se importam em perder. A impressão é que, quanto mais “burro” você fica, menos você sente que perdeu a inteligência. É o corolário do princípio de Dunning-Kruger: “quanto mais burro o sujeito é, mais ele se acha inteligente, por definição”.

 

Porém, o contrário deveria ser o mais lógico, ou seja, quanto mais você adquire conhecimento e se enriquece culturalmente, mais você percebe suas deficiências (ignorâncias).

 

Tenho uma biblioteca pessoal razoável, a qual venho construindo desde os meus idos 18 anos. Muitos (inclusive familiares) já me questionaram sobre o tamanho e a necessidade dela. Sempre respondo: o tamanho da minha biblioteca, é o reconhecimento das coisas que me faltavam saber (e faltam ainda).

 

Toda vez que percebo que não estou inteirado de um assunto ou área do conhecimento, ou seja, quando ignoro tal conhecimento, eu invisto para sobrepujar minha ignorância (compro um livro, um curso, etc). Mas, como o saber leva tempo (não me satisfaço com uma busca rasa no google), a gente fica sempre com aquela sensação de ignorância, de estar perdido em meio à imensidão do desconhecido.

 

Apesar de ser filho de uma mãe integralmente analfabeta (nem o nome jamais soube escrever) e de um pai que cursou até à 4ª série do primário (antigo), eles sempre me ensinaram que o saber não ocupa espaço.

 

Embora o termo ignorante tenha ganhado um sentido pejorativo (até uma forma de ofensa), fato é que, não fosse o reconhecimento da ignorância que em mim reside, não teria eu embarcado nessa fantástica e interminável busca pelo saber.

 

Viver na ignorância é viver na escuridão; é optar por uma vida medíocre, se sujeitando ao controle daqueles que detém o conhecimento (parte dele).

 

Ao longo da história, povos, civilizações inteiras foram subjugadas e destruídas pela passividade diante da ignorância. Impérios, governos, religiões, exploraram (e ainda assim o fazem) a ignorância inerte das pessoas.

 

Lembre-se: Há sempre alguém interessado em que você permaneça ignorante.

 

Porém, não basta o mero conhecimento teórico, nem se tornar um colecionador de informações. O aprendizado deve ser encarnado, incorporado à vida prática. Na verdade, o conhecimento deve ser transformado em sabedoria, ou seja, na arte de se colocar em prática o conhecimento adquirido.

 

Acertar todas as questões de uma prova, apenas atesta a minha capacidade de absorção de informações ou de memorização. Todavia, a prova que venci a ignorância e cresci em conhecimento, é a capacidade de colocar em prática o que aprendi (seja fazendo ou evitando fazer).

 

Tiago, em sua epístola, no capítulo 1 verso 22, nos adverte: “Tornem-se praticantes do que aprenderam, e não apenas ouvintes, enganando a vós mesmos”.

 

Quando Sócrates proferiu a famosa frase: “Só sei que nada sei”, isso não foi um elogio à sua ignorância, mas sim, a base para o abandono da opinião e dos achismos e, assim, continuar a busca incansável pelo conhecimento verdadeiro.

 

Portanto, da próxima vez que lhe chamarem de ignorante, não tome como uma ofensa, antes, faça disso um estímulo para buscar o esclarecimento (clarear a escuridão).

 

José Márcio Mantello é advogado criminalista na comarca de Araçatuba e Teólogo

Graduado em Direito pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Docência do Ensino Técnico e Superior pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Prática Penal Avançada pelo DAMÁSIO EDUCACIONAL; Especialização em Execução Penal pelo IDPB – Rio de Janeiro

Atuação no Tribunal do Júri

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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