Opinião

A imortalidade em ser escrito

"A leitura tem lá suas peculiaridades voltadas à transformação pessoal, distantes daquelas proporcionadas pela alta tecnologia"
Da Redação
12/03/2026 às 18h53
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Thiago Torres Canossa

 

Carol, como a chamavam os pouquíssimos mais íntimos, era daquelas meninas na idade típica das decisões.

 

Em determinada altura da vida, a consciência vai se desabrochando, aos poucos, às novas circunstâncias, acompanhando mudanças nítidas no corpo, nos anseios e nas percepções, sobretudo na percepção do tempo, esse fenômeno de causas quase incognoscíveis, embora de efeitos instantaneamente revelados.

 

Até ali, fora apenas uma garota, excepcionalmente comum.

 

Filha obediente. Estudante aplicada. Cidadã cumpridora de seus deveres. Inserida, como tantas outras, no fluxo previsível da sociedade.

 

No fundo, porém (bem lá no fundo), nutria uma convicção silenciosa: havia algo inconveniente no mundo que lhe era oferecido prontamente.

 

As normas, de quaisquer espécies, assomavam-se ao tempo, e como aliados, conduziam a vida de todos, sem qualquer possibilidade de escape.

 

Não para ela.

 

Carol encontrava pequenos desvios.

 

Suas amigas já se decidiam. Entrariam para a universidade. Seriam advogadas, médicas, publicitárias... toda a sorte de bacharelismos organizadamente dispostos no grande menu do mercado de trabalho.

 

Era necessário decidir.

 

Mas algo lhe parecia insuficiente. Na verdade, julgava a insuficiência como atributo natural de todas as coisas. Nada permanecia. Tudo se alterava. E se chegasse a alguma espécie de conclusão, em pouco tempo algo lhe faltava. Via isso em si mesma, nos pais, nos conhecidos e até nas coisas imaginadas. A imaginação, já dizia seu avô, era o auge das (in)satisfações.

 

Quando a ansiedade batia, refugiava-se nos livros. Não nos técnicos, tampouco nos de autoajuda. Carol não se contentava com o óbvio, dito ou escrito por quem nutria interesses mesquinhos, onde se escondem as vontades medianas. Carol gostava de literatura, não de bibliografias, algo que os pais aprovavam como hobby, mas jamais como profissão. Afinal, o dinheiro é necessário.

 

Com certa frequência, lembrava-se das aulas de biologia, nas quais Darwin, ainda que indiretamente, por meio de sua obra, ensinava que sobrevive não o mais forte, mas o que melhor se adapta às novas circunstâncias. E nisso Carol tornou-se hábil. Adaptava-se o suficiente para manter o equilíbrio entre os anseios e a cobrança que permeia a necessidade.

 

Com honesta retórica, convenceu os pais de que era cedo para escolhas definitivas, dessas das quais com pouco cuidado se arrepende. A vida é curta.

 

Precisava viver mais.

 

Experimentar mais.

 

Saber um pouco mais.

 

Dezoito anos é quase adolescência — dizia.

 

O pai lhe concedeu um prazo: um ano.

 

Até ali, tudo parecia normal.

 

O que ninguém absolutamente sabia era que as experiências que Carol buscava não pertenciam exatamente ao mundo real, o mundo de vocês todos. Não eram vivências sentidas na epiderme ou nas feridas que as transpassam. Essas, sem sombra de dúvidas, ensinam e fazem amadurecer. Carol queria as experiências da imaginação.

 

Sabia, de algum modo difícil de explicar, que mesmo uma vida bem-sucedida carregaria sempre certa insuficiência.

 

Decidiu por se experimentar nos livros.

 

A leitura tem lá suas peculiaridades voltadas à transformação pessoal, distantes daquelas proporcionadas pela alta tecnologia. Os filmes não lhe dariam o mesmo, posto que eivados de informações prontas e passivas ao espectador. A inteligência artificial, tampouco. Os livros exigiam energia cerebral ativa para a construção dos sentidos.

 

Assim, começou seu isolamento em si.

 

Não um isolamento triste, dos doentes, dos loucos, mas um isolamento literariamente social. Era ali, nas páginas, que Carol realmente fazia amigos. Conversava, discordava, refletia. Longe das preocupações mundanas mais mesquinhas.

 

Vivia. E o que seria a vida, senão um texto disposto livrescamente à interpretação?

 

Em uma dessas leituras, afeiçoou-se particularmente a um personagem curioso. Era o narrador de um livro, um personagem criado pelo escritor, que induzia o leitor à reflexão da arte, mormente a arte da expressão.

 

Em escrito, falava longamente sobre o ato de escrever. Contava pequenas anedotas. Observações simples sobre a vida. Reflexões, sobretudo, sobre o ato de criar.

 

Dizia, entre outras coisas, que as coisas criadas também podiam criar.

 

Que criar é o gesto mais elevado da vida.

 

Havia certa melancolia nessas palavras, como se aquele narrador compreendesse algo que não podia experimentar plenamente.

 

Carol passou a nutrir intensa amizade com esse ser abstrato, destituído de vida humana, mas plenamente vivo no mundo em que fora criado, vivo tão somente enquanto lido.

 

Carregava o livro consigo, como se nele houvesse a resposta para as questões mais sagradas, há muito investigadas e de rara percepção. A cada pausa entre as obrigações, ansiava por retomá-lo. Aquela muda voz lhe parecia mais honesta que muitas conversas humanas.

 

Gradualmente, as pessoas ao redor tornavam-se banais. As conversas cheias de palavras vazias. Intenções veladas. Pequenos interesses que pouco lhe diziam respeito.

 

Os pais cobravam.

 

Diziam que precisava sair. Ver as amigas. Conhecer garotos.

 

Mas para Carol, essa necessidade não existia. Já possuía um amigo suficiente para multidões.

 

Foi em meio a essa amizade silenciosa que encontrou uma frase que a acompanharia por dias. Em algum ponto entre o quarto e o quinto capítulo, após algumas reflexões do narrador, uma pergunta:

 

“Não seria você o personagem de algum livro?”

 

Anotou a frase, a pergunta que talvez ninguém lhe fizesse no percurso da vida.

 

Passou a relê-la frequentemente, tentando responder à pergunta intimamente. Não havia respostas claras. Era uma questão quase retórica, ou talvez apenas difícil demais de responder. Há perguntas sem respostas, feitas para eterna meditação.

 

Pensou então que talvez todos fossem personagens de algum livro ainda não escrito.

 

Então, para tentar compreender a própria insuficiência, começou a escrever.

 

A ausência de respostas daquele narrador a inquietava. O autor do livro já estava morto. Não havia quem pudesse explicar o sentido daquela pergunta. Restava-lhe buscar por conta própria.

 

Rascunhou algumas linhas.

 

Logo nos primeiros trechos, percebeu algo curioso: conduzir uma narrativa íntima criava cenas em algum lugar que antes não existia. Pequenos fragmentos de uma nova vida surgiam nas palavras, que se assomavam uma a uma e se completavam numa imensa incompletude por ser criada. Ali era o impossível. Ali quebrar as regras era permitido, se é que ali elas existiam.

 

Perguntou-se então se aquela não seria a sua verdadeira vida. Ou apenas outra possível.

 

Escrevia para descobrir.

 

Com o tempo, começou a sentir uma presença estranha naquele exercício. Como se a voz do narrador que tanto admirava atravessasse suas próprias palavras.

 

Impressão? Talvez.

 

Como um remédio que amenizava a insuficiência de si, Carol escrevia cada vez mais. E quanto mais escrevia, mais íntima se tornava daquela voz invisível que parecia guiá-la.

 

Meu fôlego de vida existia apenas enquanto Carol escrevia.

 

Vivi por muitos anos à sua sombra e companhia, enquanto ela me assoprava a vida com palavras rabiscadas, linha após linha. Era o mísero instante em que eu vivia. Esse mesmo instante de que todos vocês dispõem, mas desvalorizam, sempre à espera de algo ou alguém que lhe recobre qualquer motivo para a vida, eternamente efêmera, mas também sempre infinita.

 

Mas o mundo, esse mundo em que vivem, sempre cobra seus tributos.

 

Vieram as obrigações. A faculdade. O trabalho. A lida.

 

Carol escrevia cada vez menos.

 

Até parar.

 

Carol morreu depois que parou de escrever.

 

Não por doença, ou tragédia, ou causas naturais, mas daquela morte silenciosa que acomete alguém que se abandona, que desiste daquilo que nos mantinha verdadeiramente vivo.

 

Ainda assim, algo permaneceu. As palavras sempre permanecem. Assim como eu permaneço, nestas palavras, por ela escritas, e vivo, somente se, e enquanto lido.

 

Nelas está registrada a nossa imortalidade, aquela que o criador concede a quem cria, ao insuficiente reconhecido, que busca e escreve, tentando adiar a morte, sem querer ser reconhecido. Quem sabe nesse canto um dia não nos reencontramos, assim como agora eu o encontro, enquanto nos mantivermos escritos.

 

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Entre no grupo do Whatsapp
Logo Trio Copyright © 2026 Trio Agência de Notícias. Todos os direitos reservados.