Por Jean Oliveira
Tem uma frase que circula muito — nos grupos de família, nas terapias, nas redes sociais: "Eu só reagi ao que fizeram comigo". Parece razoável. Às vezes, até é verdade. Mas, quase sempre, é o começo de uma armadilha: a de viver como alguém que apenas reage ao mundo, nunca como causa ou, no mínimo, coautor da própria história.
Ao buscar a defesa imediata de que fomos vítimas, tentamos afastar o papel de culpados. O problema é que, nessa fuga, confundimos duas coisas bem diferentes: sentir culpa e assumir responsabilidade.
A culpa, no seu excesso, paralisa. Ela não quer resolver — quer punir. É aquela voz interna que não cala: "você errou, você errou". Quem vive afogado nela não muda; apenas sofre, se autoflagela e repete. A responsabilidade é outra coisa. Ela não pergunta "o que eu fiz de errado?" como quem espera uma sentença. Ela pergunta "o que eu fiz?" — e, mais importante — "o que eu faço com isso agora?"
Na psicanálise, essa transição da culpa paralisante para a responsabilidade ativa tem um nome. O psicanalista britânico Donald Winnicott chamou de concernimento a capacidade de se importar genuinamente com o impacto que causamos no outro. Não por medo de punição ou vergonha social, mas porque, em um estágio de amadurecimento emocional, passamos a reconhecer que nossas ações têm peso — e que esse peso recai sobre pessoas reais.
Essa é uma conquista psíquica que não nasce pronta; precisa ser construída. Quando essa capacidade falha, o resultado é conhecido: pessoas que machucam e justificam, que somem sem explicação, que mentem por conforto e que cobram do mundo o que nunca ofereceram. Diante das consequências, o mecanismo de defesa é quase automático: a projeção. Atribui-se ao outro aquilo que não se consegue tolerar em si mesmo. É mais fácil e menos doloroso no curto prazo.
O preço desse alívio, porém, é alto. Ao terceirizar a culpa pelos próprios atos, terceiriza-se também o controle sobre a própria vida. Se tudo o que me acontece é responsabilidade do outro, fico refém, esperando que o outro mude para que minha situação melhore. Por isso, responsabilidade não é autopunição. É autonomia.
Assumir essa postura — sem drama, sem chicote — é um ato de saúde mental. É dizer: "eu estava aqui, eu fiz parte disso, e posso fazer diferente". Não apaga o passado, mas devolve ao sujeito a capacidade de agir, de reparar e de aprender.
Freud já apontava que o amadurecimento passa, necessariamente, pela capacidade de tolerar a nossa própria ambivalência — aceitar que somos capazes tanto de amar quanto de ferir, e que existimos em um território complexo, longe dos extremos de herói ou vítima integral.
Na próxima vez que algo der errado — num relacionamento, no trabalho, em casa —, antes de apontar o dedo para fora, pause um segundo. Não para se destruir ou assumir o que não é seu. Só para se perguntar, com honestidade: "qual foi o meu papel nisso?"
Essa pergunta, quando feita sem crueldade, é o começo de quase tudo.
Jean Oliveira é psicólogo e jornalista
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