Por Antonio Luceni
Li Ensaio sobre a Cegueira (Companhia das Letras, 1995) quando do seu lançamento e, como não poderia ser diferente, o impacto causado na leitura dele foi proporcional à grandiloquência e a novidade que a literatura produzida por José Saramago (1922 – 2010) sempre o são.
A ruptura com o registro normativo da pontuação e as construções longas dos parágrafos, exigindo do leitor uma leitura atenta e cuidadosa a fim de não “se perder” no meio do texto, torna-se a porta de entrada para um texto “duro” e difícil de permear, bastante condizente com o título. Mas não só; a própria temática e um tipo de cegueira diversa (uma cegueira branca) à habitual é outro “diferencial” no texto. “Tensão” e “angústia”, talvez, sejam as palavras-chave que bem caracterizam o livro, dada a maneira como o autor, único Nobel em língua portuguesa, conduz a narrativa; modus operandi já vinha sendo explorado em livros anteriores, especialmente em Levantado do chão (1980).
Conforme resenha do livro no sítio da editora, “Ensaio sobre a cegueira é uma verdadeira viagem às trevas da humanidade. (...) este livro leva os leitores a um cenário devastador, onde uma doença misteriosa deixa cegos, um a um, os habitantes de uma cidade. Todos exceto uma mulher, que, para cuidar de si e de seu marido, simula sofrer dessa trágica condição, mesmo sob o custo de testemunhar todos à sua volta se reduzir à essência humana”.
Anos depois, em 2008, Fernando Meirelles (1955 - ) transporá essa narrativa para o cinema, com não menos sucesso, lotando as salas de cinema de todo o Brasil, recebendo diferentes prêmios pela obra, entre os quais, Melhor filme e Melhor direção (Prêmio Silver Frog, 2008 e Prêmio Fiesp/Sesi de Cinema, 2009); Melhor fotografia e Melhor montagem (Grande prêmio do Cinema Brasileiro, 2009). Uma curiosidade: quando da première em Cannes, com José Saramago na plateia, Fernando Meirelles estava nervoso e tenso, não só por conta do lançamento, mas também pela reação que Saramago poderia ter, sobremaneira em não gostar do resultado do filme. No encerramento da sessão, e ao acender das luzes, o escritor, emocionado, declara: “Estou tão feliz por ter visto este filme como estava quando acabei de escrever o livro”. Esse depoimento está registrado e pode ser verificado no Youtube.
No último final de semana (27 e 28/03), na unidade do Sesc de Birigui, SP, tivemos a oportunidade de prestigiar mais uma versão de (Um) Ensaio sobre a cegueira, agora na linguagem teatral, sob os cuidados do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, MG, um dos mais antigos (fundado em 1982) e atuantes do país. Como o título do espetáculo sugere, uma versão do livro, talvez, mais conhecido de Saramago pelo grande público; muito, imagino, em razão dessa pluralidade de linguagens explorando ele.
Com a plateia do Sesc lotada, com ingressos esgotados dias antes das apresentações, um misto de comicidade, tensão e choro pode ser visto nas suas mais de duas horas de duração, com participação direta e significativa de e(x)spectadores, os atores e atrizes incitavam o público presente a todo momento, com olhares diretos, com descrições de locais próprio de Birigui, com luzes que nos “cegavam” de tempos em tempos. A culminância do espetáculo se deu com todos “libertos” da caixa preta, do “hospício” em que estavam presos, fechando a apresentação numa grande roda no saguão de entrada do prédio, entoando uma “canção de liberdade”, emocionando a muitos dos participantes. Um espetáculo lindo de ver e de viver.
Fiquei pensando, entre outras coisas, sobre a importância da arte na vida de todos nós; do quanto o interior ainda é carente de bons espetáculos, exposições visuais, filmes, livrarias e bibliotecas; da necessidade que todos temos, como afirma Antonio Candido, de fruir arte ampliando nossa formação humana; da beleza de ter tanta gente boa produzindo arte em língua portuguesa, nossa língua materna...
Saramago, onde quer que esteja e mesmo ateu, deve ter ficado contente também com toda essa movimentação em torno de seu nome e de sua obra. Mais contente ainda, creio, ficará quando perceber que, paulatinamente, todos nós estivermos saindo de nossa cegueira branca (que não é a natural, causada por “n” questões”) como quem sai de uma caverna e encara o mundo com a clareza que deve ser encarado, tal como no mito platônico.
Antonio Luceni é doutorando em Artes pela UNESP, câmpus São Paulo, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras
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