“Oi. Uma pergunta: como é ser filho de Carlos Henrique Cotait?”. Por causa desta e de mais de uma centena de mensagens, o hacker Patrick César da Silva Brito virou réu em mais um processo, desta vez, pelo crime de stalking contra o delegado de polícia Carlos Henrique Cotait, que exerce a função de Divisionário da Deic (Divisão Especializada de Investigações Criminais) de Araçatuba.
O crime de stalking está previsto na lei 14.132/2021 e se configura com a perseguição reiterada, por qualquer meio, como a internet (cyberstalking), que ameace a integridade física e psicológica de alguém, interferindo na liberdade e na privacidade da vítima.
Não há segredo de Justiça nesse processo de stalking que tramita na 3ª Vara Criminal de Araçatuba. Ele foi baseado em inquérito com mais de 3.000 páginas, que inclui relatórios de outras investigações.
A reportagem apurou que além das mensagens direcionadas ao próprio delegado e a familiares dele, a polícia teve acesso a mensagens enviadas pelo hacker a uma terceira pessoa, na qual ele cita que o filho do Cotait "é lindo" e que, se “pegasse” o jovem, seria o “pagamento” dele para o delegado.
Contexto
O delegado foi o responsável pelo inquérito que resultou na condenação do hacker a 9 anos e 3 meses de prisão, por invasão de dispositivos e extorsão contra o ex-prefeito Dilador Borges (PSD) e a esposa dele, Deomerce Damasceno.
Patrick, que tem a prisão preventiva decretada em dois processos, segue na Sérvia, aguardando decisão sobre pedido de extradição. Autoridades ouvidas pela reportagem comentam que aproveitando dessa condição, ele segue encaminhando mensagens, apesar de haver medidas restritivas, que proibem a ele, o acesso a redes sociais.
No inquérito que resultou na nova denúncia consta que além de mandar mensagens para a própria vítima, elas também foram encaminhadas para a esposa do delegado, para a sogra e para colegas policiais, como investigadores e delegados, entre outras pessoas, sempre com a citação do nome de Cotait.
Materialidade
A denúncia foi aceita em 19 de março e, na decisão, consta que a Justiça considerou que a materialidade do crime está provada e há indícios de autoria. Como o réu está na Sérvia, foi determinada a expedição de edital de citação, para que no prazo de dez dias após ser citado, ele responda, por escrito, às acusações.
“Os documentos demonstram que a ordem pública se encontra efetivamente ameaçada, e que a custódia cautelar do acusado, já decretada anteriormente em outro feito, mostra-se necessária”, consta na decisão.
Investigação
Conforme amplamente divulgado, o hacker acusa o delegado de tê-lo cooptado para ajudar, de forma irregular, para supostamente auxiliar na investigação de alvos da Operação Raio-X. Essa operação foi deflagrada em setembro de 2020, quando foram cumpridos dezenas de mandados de busca e apreensão e de prisão, após cerca de dois anos de investigação.
Patrick só passou a ser investigado pela Polícia Civil de Araçatuba em janeiro de 2021, ou seja, quatro meses depois, quando foi identificado como sendo o autor dos crimes cometidos contra Dilador e Deomerce. O mandado de prisão referente a esse processo foi expedido em maio de 2022 e, desde então, o hacker passou a enviar mensagens ameaçadoras para o delegado e para toda equipe responsável pela investigação.
Por conta disso, ele também é réu em outro processo criminal por ameaça, perseguição, calúnia e injúria contra o próprio delegado e contra vários policiais civis de Araçatuba. Essa denúncia foi aceita em abril de 2025, mas o processo só passou a andar após a citação, ocorrida no início de março, quando o réu acessou o atendimento da Justiça via Balcão Virtual.
Stalking
Já a denúncia do Ministério Público no processo que apura o crime de stalking, cita mensagens enviadas pelo hacker entre março e maio de 2024, que resultaram em boletins de ocorrência. Trata-se de mensagens enviadas de celulares registrados no nome do réu e também por e-mail, além de gravações de voz, insinuando que ele estaria monitorando a rotina pessoal da vítima, visando prejudicar a atuação profissional e integridade psicológica dela.
A mensagem por celular relacionada ao filho de Cotait, que resultou no boletim de ocorrência para apurar o crime de stalking, foi recebida pela sogra do delegado, que utiliza um celular registrado no nome dele. Ela foi enviada em 27 de março de 2024, de um número internacional registrado na Sérvia.
Segundo o que foi relatado, a idosa entrou em desespero ao saber que a mensagem era dirigida ao neto dela, na época um estudante universitário de 18 anos, que residia sozinho em outra cidade. Ela só teria ficado mais tranquila ao saber que o neto não havia recebido nenhuma mensagem.
Consta ainda no boletim de ocorrência que o delegado também teve que avisar a esposa dele sobre o ocorrido, deixando-a da mesma forma, extremamente preocupada com a situação.
Casa
Consta ainda na denúncia outra mensagem enviada em 9 de abril de 2024, e recebida nos celulares em nome de Cotait. Nela, foi anexada uma imagem da frente da residência da vítima, com a advertência: “Abre”. Consta no inquérito que a mensagem chegou como “encaminhada”.
A intenção do autor, segundo o relatório da polícia, era dar a impressão de que ele teria recebido a foto de uma terceira pessoa. Porém, pesquisa apontou que a imagem foi feita pelo aplicativo “Google Maps” e recortada.
Para a polícia, ficou caracterizado que Patrick tentou dar a impressão de que possuía pessoas no Brasil para auxiliá-lo nas atividades consideradas criminosas, visando intimidar o delegado e os familiares dele. Diante disso, ao oferecer a denúncia, o Ministério Público considerou que o hacker tem perturbado psicologicamente a vítima, prejudicando a liberdade dela.
Entrevistas
O réu também fez graves acusações contra o delegado, em matéria publicada por uma revista de circulação nacional e em programas de entrevistas no Youtube. Essas acusações resultaram na transferência de Cotait de função, em agosto de 2024, ou seja, pouco tempo depois de o hacker ter enviado as mensagens que agora o tornaram réu em mais um processo.
A apuração preliminar da Corregedoria da Polícia Civil da Capital, determinada pela SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Estado, em função das denúncias feitas pelo hacker, foi arquivada em setembro de 2025, por não terem sido encontrados indícios das supostas irregularidades apontadas.
O delegado foi reconduzido ao cargo de Divisionário da Deic na última sexta-feira (27), conforme publicação no Diário Oficial do Estado.
Defesa
A reportagem procurou o advogado que consta no processo em que Patrick foi denunciado por stalking, mas ele informou que não o representará nesse caso. Também foi feito contato com o escritório de outro advogado que representa o hacker, com sede no Rio de Janeiro, e a resposta foi que escritório não foi constituído para defesa nesse caso.