"É uma centelha de esperança para diversas pessoas que achavam que não tinham mais soluções para os seus casos e que agora podem acreditar em algo mais promissor. Acordar pensando que o que antes era um diagnóstico definitivo, hoje é só uma vírgula da história”.
Foi assim que o provedor da Santa Casa de Araçatuba (SP), Everton Santos, descreveu a primeira aplicação de polilaminina em um paciente na região de Araçatuba, procedimento que foi realizado no hospital na manhã desta segunda-feira (20). Ainda em fase de estudos, o medicamento vem sendo utilizado no tratamento do trauma raquimedular agudo, que é uma lesão da medula espinhal ou coluna vertebral.
A aplicação, que durou menos de uma hora, foi conduzida pelos médicos Guilherme Galdino de Sousa e Eliel de Souza Leite, responsáveis pelo protocolo de pesquisa Tratamento da Lesão Raquimedular com Injeção de Polilaminina.
O coordenador do Serviço de Neurocirurgia da Santa Casa de Araçatuba, Daniel Rodrigues, responsável pela internação do paciente, também participou do procedimento, que foi acompanhado pelo médico Luciano Perdigão, que foi quem sugeriu a aplicação.
Procura
Segundo Santos, após a divulgação no domingo de que o hospital faria a aplicação, dezenas de pessoas passaram a fazer contato por telefone e também por mensagens, querendo informações sobre como proceder para conseguir o tratamento para outros pacientes com o mesmo perfil.
Entretanto, o provedor da Santa Casa deixou claro que trata-se de um estudo e um procedimento experimental que depende de autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Porém, ele informou que se houver outras pessoas que tenham o perfil e que possam ser incluídas no estudo, será feita a avaliação e conversado com os responsáveis para analisar a viabilidade de atendimento. “Na verdade, o que nós queremos é que esse medicamento seja eficaz, seja seguro, e que logo ele possa ser aprovado também para comercialização e atender a população como um todo”, comentou.
Caso
O paciente que iniciou o tratamento nesta segunda-feira é morador em Clementina, tem 50 anos, e que foi diagnosticado com lesão da medula espinhal na região cervical, após grave acidente automobilístico ocorrido em janeiro, em Birigui.
A indicação para ele receber a polilaminina foi feita pelo médico Luciano Perdigão, que atende na Atenção Básica em Clementina e faz o acompanhamento do paciente naquela cidade. O médico participou de uma entrevista coletiva após o procedimento e explicou que ao ser procurado pela família, informou que havia uma medicação em fase de estudos, que poderia ser tentada.
“A família encabeçou essa questão. Eles arrumaram um advogado e pleitearam junto à Anvisa, que é o órgão máximo para poder fazer a aplicação do medicamento, e ele foi selecionado para fazer o uso compassivo”, explicou.
Processo
Perdigão informou que desde o início da tratativa até a autorização para a aplicação do medicamento, transcorreram-se cerca de 50 dias. Ele fez questão de reforçar ainda, que não trata-se de uma medicação pronta, que está em estoque, e que poderia ser repassada para outro paciente.
“Posso dizer para vocês que foi um grande desafio. Tivemos que apresentar relatórios atualizados para a Anvisa, para o laboratório, para que eles pudessem analisar, fora o exame clínico, o exame físico do paciente quando eles solicitaram”, contou.
Somente depois disso que é conclui-se que o paciente se enquadrava e foi aguardada a autorização. Também coube à família escolher o hospital onde o procedimento seria realizado e a opção foi pela Santa Casa de Araçatuba.
“Eu reforço que a Santa Casa, ao abrir as portas, ela permitiu ser feito no Estado de São Paulo uma medicação que pode ser muito promissora, que está numa etapa muito importante da pesquisa, isso que é singular mesmo em Araçatuba, na região e no Estado de São Paulo”, declarou Perdigão.
Procedimento foi considerado um sucesso
O coordenador do Serviço de Neurocirurgia da Santa Casa de Araçatuba, Daniel Rodrigues, informou em entrevista coletiva que a primeira aplicação de polilaminina em um paciente na região de Araçatuba, ocorrida na manhã desta segunda-feira no hospital, pode ser considerada um sucesso.
“O procedimento foi realizado dentro do esperado, foi um procedimento minimamente invasivo, feito com anestesia local. Esse procedimento, foi introduzida uma agulha dentro da medula, para que seja administrada a medicação”, explicou.
Ainda de acordo com o médico, foi utilizado um raio-X para guiar a agulha e feito o procedimento de introdução da medicação. O paciente permanecerá internado e passará por acompanhamento, para que sejam avaliados tanto o grau de recuperação da força motora, que refere-se ao movimento, quanto da sensibilidade, que ele perdeu com a lesão.
Prazo
Entretanto, Rodrigues enfatizou que essas avaliações serão periódicas e não existe um prazo de recuperação específico. “A gente acredita que semanas ou meses são necessários, porque a gente espera essa recuperação”, declarou.
O médico reforçou que os estudos com relação ao medicamento ainda estão sendo realizados para saber qual a população eletiva a ser atendida, com relação a idade e tempo de resposta, lembrando que até então, a lesão medular era irreversível.
O provedor da Santa Casa, Everton Santos, comentou que o estudo será importante para responder a essas perguntas e explicou que as lesões medulares são as mais difíceis de se tratar e leva tempo para essa regeneração.
Referência
Como a Santa Casa de Araçatuba é referência para procedimentos de média e alta complexidade para a cidade e outros 39 municípios da região, diariamente recebe pacientes que poderiam se enquadrar nesse tipo de tratamento.
“Diariamente a gente recebe casos de pessoas com lesão medular de todos os aspectos, seja de mergulho em água rasa, queda, acidente automobilístico, acidente no trabalho, essas lesões elas costumam ser lesões muito graves”, revelou Rodrigues.
A orientação do hospital para as pessoas interessadas em participar do estudo é que toda solicitação seja feita à Anvisa. Em caso de dúvidas, a recomendação é que se procure a Secretaria de Saúde do município de origem do paciente, sobre onde buscar assistência.
“Se for elegível (o paciente), os hospitais da nossa região vão fazer todo o acolhimento e a Santa Casa de Araçatuba estará sempre à disposição para atender a nossa gente”, finalizou o provedor do hospital.