Opinião

Vidas humanas também importam

“Eu freio para animais”
Da Redação
10/02/2026 às 10h07
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Antônio Reis

 

No último dia de janeiro, assisti em teatro, pela terceira vez, “O auto da Compadecida”, a mais conhecida obra do mestre Suassuna. A trama, numa cidade qualquer do interior do Nordeste, começa com a trapaça dos amigos João Grilo e Chicó para que o padre encomende a alma de um cachorro morto.

 

A dona do animal é a mulher de um comerciante influente, que colabora com a igreja nas obras sociais e com pequenos “privilégios” ao padre. O religioso se dobra à absurda proposta mediante a promessa de generosa ajuda financeira. A trama é uma afronta jocosa aos preceitos da Igreja. 

 

Saí do teatro recordando do que me ocorrera naquela manhã, quando pedalava próximo ao Centro de Araçatuba. Quase fui atropelado por um carro que me “fechou” e seguiu seu destino. Mesmo o veículo em velocidade incompatível para o local, pude ver no vidro traseiro um enorme adesivo, com a estampa de um cachorro e a frase: “Eu freio para animais”. 

 

Minha formação humanista, avessa a igreja e religião, obriga-me a respeitar todos os seres viventes e todos os tipos de vida, inclusive estilos e escolhas. Repudio tortura, maus-tratos, cativeiro; tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. Defendo mesa farta, qualidade de vida, proteção aos indefesos; prego tratamento justo para os desiguais nos direitos e nas obrigações. Sendo eu o motorista, frearia para animais e para humanos. 

 

Pelos princípios descritos, sou sim defensor da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Paris, ONU, 1948). E pela lógica, reconheço a importância da Declaração Universal dos Direitos dos Animais (Bruxelas, Unesco, 1978). Quanto à choldra que freia apenas para animais, tenho certeza de que repudia o tratado de 1948 e valoriza só o de 1978, caso o conheça.

 

Toda manifestação para cobrar punição de torturadores ou daqueles que eliminam vidas (humanas ou não) é imprescindível, porque leis são pactos civilizatórios que precisam ser respeitados em qualquer situação, não apenas quando interessa a uma das partes. Vidas animais importam, mas vidas humanas também. 

 

Dois dias após minha ida ao teatro, li as notícias “Bebê de 1 ano morre atacada por pitbull ao brincar em parquinho na Bahia” (UOL) e “Polícia Civil de SP apura se bebê de 11 meses estava morto antes de ser atacado por pitbull” (Estadão), ambas do dia 3 de fevereiro de 2026. Pesquisei o Google e descobri, estupefato, que entre 2020 e 2023 o Brasil registou 156 mortes decorrentes de mordidas ou ataques de cães. Maior que meu espanto, foi a indignação de saber que nesse período não teve nenhum protesto exigindo Justiça, punição, “fim da impunidade”. 

 

Penso que a humanização de cães, que já dispõem até de cerveja própria e crematório do cadáver, normalizou absurdos antes inconcebíveis até aos mais hipócritas dos religiosos. Assim sendo, é urgente a atualização da obra de Suassuna. O absurdo, e cômico, não será mais a “encomendação” da alma de um cachorro, mas de um ser humano. Principalmente se for pobre e preto.

 

(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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