Opinião

Rua Bandeirantes

"A fila de uma padaria é a última estratégia do vendedor"
Da Redação
05/01/2026 às 18h18
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Thiago T. Canossa

 

Véspera de ano novo. O feriado mais esperado... pra maioria, ao menos. Nós, os brasileiros, gostamos... De minha parte, indiferente. Dia como outro qualquer, convencionado sabe-se lá quando e por quem. Saí de casa. Um baita calor. Daqueles que só sabem os que conheceram essa cidade. Aqui é foda. Mulher grávida, sete meses... sem condições. É justo que ela descanse. Trabalhou o ano todo. Merecido recesso. Agora era repouso. Logo a Celina chegaria ao mundo. Mas era eu quem tinha que buscar o almoço... era eu. Faço com prazer. A criança ainda levaria alguns meses, dois ou três... mas sem querer, tadinha, já incomodava (não esse incômodo imaginado). Mal sabia ela o estágio atual do mundo que a esperava. Serei um bom pai.

 

Saí de casa com destino à padaria. Liguei o carro, o ar-condicionado. Veio um bafo de ar quente. Meu deus! Que calor! Piorava a cada ano. Era um daqueles estabelecimentos bem frequentados da cidade, com ampla acomodação e estacionamento pra motos, bicicletas e carros. Lugar de gente cheirosa e bem-vestida, cheia de assunto pra compartilhar, à companhia de um geladíssimo chope. Lugar tradicional, sem que abandonasse a modernidade que o tem acompanhado. Não sou daqui, ao menos originariamente, mas conheço bem o lugar. A comida é boa... e o lugar bem asseado.

 

Entrei no estabelecimento. O ar interno refrescava, como um albergue temporário aos animais ofegados pelo sol. As paredes fechadas com vidros escuros, como se quisessem esconder o dia quente. Mas o sol é incansável. Esse, sem dúvidas, é brasileiro. As pessoas também. Entravam. Muitas já estavam, de certo há muito. E falavam, e riam, comiam, bebiam.

 

Pretos, brancos, mestiços. Aos fundos, mãos que balançavam ao ar, gesticulavam, mãos femininas, munidas de pulseiras, joias brilhosas... as unhas pintadas adornavam os dedos que queriam dizer... sinais... coisas da comunicação... as próprias bocas tentavam, acompanhavam o ritmo dos movimentos corporais que intentavam dizer as coisas que não seriam ditas em outras ocasiões. Coisas sérias ou meras veleidades. Impossível escutar. Mas dava pra imaginar. Até criar mentalmente uma interlocução com sentido harmônico aos movimentos. Era possível. Talvez quisessem, de verdade, dizer outras coisas... coisas outras além do dito. A palavra que sai não volta. Ou talvez o dito só fosse aquilo que o álcool permitia, como quando liberta os freios da linguagem moral e social. Segredos. Ou não. Eu não julgo. Talvez o necessário tenha sido alcançado. Quem sou eu. Eram felizes naquele instante. Nunca se sabe o que pode nos ocorrer ao cabo de um dia. Ser humano é complexo.

 

Mas gosto disso. Parar, observar, imaginar, interpretando os menores atos. Haja tempo. Os homens, por sua vez, só ouviam. Bebiam. Falava-se disso... daquilo, raramente discordavam, sorriam, comiam, cantavam... alguns se beijavam. Vesti meus óculos escuros. Peguei a comanda: - É aqui.

 

Olhei pra trás. Entrei de vez.

 

Uma imensa variedade de produtos multicoloridos. Salgados enormes e recheados. Frescos, sob a iluminação de uma claríssima vitrine que os mantinham aquecidos. Doces requintadamente recentes, vistosos e muito bem adornados, ladeados por uma respeitosa máquina de café italiano, sobre um balcão de pedra, onde os mais velhos palestravam em pé. Esses gesticulavam menos. Ouviam com mais calma. Meditavam. Só opinavam, entre goles, ao término da alheia interlocução. Havia respeito. Sabedorias da idade demonstradas entre um e outro ajuste nos cansados óculos. Outros, a sós, sorviam, pensavam. Apenas apreciavam. Sabe-se lá o que matutavam dentro de si. A calma de quem conversa sob o efeito de um café é distinta. O café é a droga do pensador.

 

Era só pedir. Com aquele sorriso encantador – o senhor já foi atendido? - com o maior prazer, - me empresta a sua comanda! - , e todos ficam felizes. Mas não. Eu tinha que ser direto. Discreto. Passar reto. Ir até o fundo. Era buscar a marmita e voltar pra casa. Era véspera de feriado. Sem tempo para café ou salgados. A mulher me aguardava. Disse-lhe que atrasaria.

 

- A padaria está lotada. Coma algo leve até lá – mandei-lhe por mensagem. Incríveis possibilidades da tecnologia comunicacional.

 

Nessas horas sinto uma baita falta da minha máquina fotográfica. É certo que o celular faz boas fotos. Mas nada como um dispositivo apropriado que capture os instantes com maior propriedade e verossimilhança. O dia é cheio de instantes ricos e gratuitamente dispostos para serem registrados. É texto da vida em imagem que se eterniza. Aquelas mãos. Poderiam ter sido registradas, pra que me lembrasse o dia décadas depois, se vivo fosse. Se não, outros a veriam...  Teriam aos olhos as nuances na beleza de um dia qualquer. Não era o caso. Ainda assim, estranhariam um fotógrafo aleatório, caçando momentos de descontração. Tem a coisa do direito à imagem também. Pior ainda, seria flagrar em cena, uma verdade que não se quer revelada. Um encontro às escondidas, uma velada traição. Um encontro de negócios... ilícitos. É possível. Vê-se muito nos filmes.

 

Fiz o pedido. Aguardei em pé. Ao meu redor, famílias compostas, crianças clamavam por produtos ao rogo dos pais despreparados.

 

- Não precisamos disso – dizia um homem grande e gordo a uma garotinha com um frasco de suco às mãos – devolva-o onde achou. Serei um pai assim? Não sei. Só na hora pra saber.

 

Suco de laranja natural, geladíssimo. Compraria, decerto, mais pela cor amarela de tons alegres, de uma beleza irredutível... compraria, menos pelo sabor, certamente primoroso... compraria mais pela cor, tamanha beleza de se ver aos olhos. Nessas horas sou grato por enxergar.

 

À minha traseira, uma fila imensa se formava, ao lado de geladeiras com outros variados produtos, cada qual com uma marca distinta, dispostas em palavras criativas, pensadas com antecedência, muitas oriundas de outras línguas. Estrangeirismos. Pra quem vende, infelizmente, existe essa crença de que o que vem de fora é melhor. Ao menos, acreditam soar melhor. O inglês tem preferência. A fonética dos nomes muda os sentidos e os conceitos possíveis. Discutível. As coisas andam caras nos últimos anos.

 

A Coca-Cola gelada estampada com gotículas de suor. Brilhavam ao toque do negrume líquido gaseificado. Se publicitário fosse, sugeriria Coca-Loca. Soa mais fluido, sem abandonar a nossa identidade brasileira. Que viagem. A fila de uma padaria é a última estratégia do vendedor. Enquanto esperam a vez de pagar, há de se depararem com o rogo dos produtos, como crianças dispostas à adoção. Salgados, doces, bolos. Refrigerantes, bebidas alcoolicas, como a última oferta aos que não degustaram. Era o último dia do ano. E daí? Todos com produtos às mãos, às quais outros se assomavam no percurso da reta linha.

 

Uma mulher ia embora com um saco de pães. Talvez seu intento fosse esse apenas. Pães, e nada mais. Na fila, encheu-se de guloseimas. Ao pagar, ainda pediu por algumas balas, isqueiro e cigarros. Lembrei-me de Guimarães: “Pão ou pães, é tudo questão de opiniães”.

 

Pensei no passado, sei lá, de uns cem anos. Como seria essa tola experiência. A disposição dos produtos, das cores planejadas e das estratégias implícitas ao consumo. Enfim, veleidades. Coisas que se pensa enquanto espera. Afinal, nada de importante. Um dia comum.

 

- Thiago!

 

Peguei minha marmita. Era minha vez de enfrentar a fila. Comprida, mas andava. Os funcionários eram bem treinados. E nisso se faz a tradição, acredito. Um estabelecimento que se mantenha por anos fiel à clientela, no mínimo, trabalha com efetiva qualidade. Fossem outros tempos, talvez me irritasse. Não era o caso, era outra pessoa, agora mais afeiçoada aos prazeres dos míseros instantes. A fila andava.

 

Com a marmita em mãos, caminhei. As geladeiras, convidativas ao calor que lá fora fazia. Uma cerveja. Quem sabe. Melhor não. Meu estômago não é mais o mesmo de outrora. O excesso fechou esse ciclo. Um refrigerante. Mas nada como a Coca. Cairia bem com a comida. Tubaína, Guaraná, Sukita, Prats, Del Valle, Tônicas... Skol, Heineken, Brahma Duplo Malte... Sem falar nos queijos... Não... Vim buscar a marmita. A mulher aguardava.

 

No final da fila, uma estante, chocolates, biscoitos de polvilho e guloseimas. Difícil não ser fisgado. O homem morre pela boca. Mas tava tudo lá. Estavam em todo lugar. Era uma luta pela atenção. O bravo era administrar as emoções. Nada vende tão bem como o que se come e o que se bebe. Trabalha-se pra isso.

 

- Só a marmita, senhor? Vinte e quatro reais. Débito ou crédito?

 

Por detrás da atendente, que sorria, produtos outros, estrategicamente postos para a captura dos esquecidos.

 

Olhei à minha volta. Os mesmos clientes às mesas inda bebiam, gesticulavam, comiam, beijavam, agregavam-se a outros que chegavam. Mais tarde, o que será fariam? Festas? Bacanais? Crimes dolosos, imprudentes? Talvez só dormiriam.

 

Paguei e fui embora. Liguei o carro, o ar-condicionado.

 

A imagem da geladeira veio forte. O sol judiava. Quis voltar. Matutei. Deixei pra lá.

 

No carro, sob o banco do passageiro, a garrafa térmica continha água, mineral, estupidamente gelada. Bebi dois ou três copos, como quem toma um banho de mar. Era isso. O verão, a água, a licença-prêmio, o ar-condicionado. Era tudo o que eu precisava. Um sorriso de satisfação, daqueles sorridos quando nada faltava. A mulher me esperava.

 

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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