Por Thiago T. Canossa
Minha filha nasceu.
Véspera de feriado da paixão.
Os primeiros sintomas vieram em uma madrugada quente de um outono recém-chegado, de trabalho contínuo desde o turno iniciado.
Duas prisões em flagrante delito devidamente lavradas, ato comum às atribuições de um escriba policial. Não daqueles de campo, que abordam, buscam e averiguam, mas daqueles das escrituras, que formalizam os fatos de interesse jurídico, conforme os mandamentos legais vigentes no país.
Uma mistura de sentimentos se aflorava naquela noite incomum. Dez anos de ofício se vão, carregados pelo tempo, que leva tudo, inclusive o próprio tempo.
Uma pausa. Liemi ligou, comunicando os sintomas incomuns até aquele momento de gestação.
Pediu-me calma. A médica lhe dissera para que preparasse as malas.
Sem me desesperar, comuniquei o fato aos colegas, que em instantes compreenderam.
- Vá, o quanto antes. Continuaremos aqui. Boa sorte.
A pressa não era necessária. Havia tempo suficiente, desde que não o perdesse às mãos.
Felizmente, a coisa tinha sido devidamente planejada, e com antecedência mais que suficiente. O quarto estava pronto, o berço, as coisinhas dela e tudo o mais necessário à vinda de uma nova vida às nossas vidas. As mulheres têm essa capacidade de serem boas em quase tudo o que fazem. Mérito delas. Aproveito o ensejo para aprender. Não fosse isso, as dificuldades seriam maiores, inda mais comigo, esse meu jeito lapso e lacunoso de ser, fraquejado pelos excessos.
No hospital, lugar de vida e morte, os funcionários trabalhavam incessantemente, indicando-nos o local para internação: “Vai nascer”.
As contrações aumentavam. De minha parte, apenas conduzia, perguntava. Incumbia-me somente esperar.
Preparei a máquina fotográfica. Uma Canon R100 destituída de espelho, coisa de última tecnologia, adquirida em dezoito parcelas para o registro do instante que viria. A fotografia tem esse mister: registrar instantes únicos que jamais voltarão, a não ser à memória, por meio de imagens captadas com técnica e olhar treinado.
Enquanto aguardava, o pensamento trabalhava. A vida tão aguardada formalizaria um novo ciclo entre duas vidas que há quase quinze anos se compartilhavam, com mais alegrias do que tristezas.
Pensei em meus pais, meus avós, meus sogros e os pais deles. Essa vida prestes a chegar. De onde vinha? O que trazia consigo? De que forma nos transformaria?
A mulher, de cedo, nutre os anseios com todos os cuidados de mãe, explodindo hormônios à flor da pele, com todas as dores que só as mães são capazes de suportar. O pai também, mas de outra forma, com sensações que ascendem majoritariamente no ato da expulsão.
A cada dia nascem e morrem milhares de pessoas no mundo. Vidas vêm e vão, cumprindo uma espécie de missão, cedendo espaço para que outras a assimilem, a continuem ou contribuam, de alguma forma, com algo nesse mundo. A vida é complexa. Compreendê-la, impossível. Mas o instinto cumpre essa parte. As respostas, se é que que nos são concedidas, vêm em tempo certo. Não no nosso, mas do próprio tempo.
Liemi havia sido conduzida à sala de cirurgia com contrações. Via que doía. Mas forte como só ela, suportava, com olhar frio e atento à compreensão das leis naturais. Eu aguardava em sala apartada, até o início do parto. Dava os detalhes técnicos finais no modo manual da câmera fotográfica, quando uma enfermeira entrou.
- Em instantes você vem. Um detalhe, porém. Não é permitido o uso de máquinas fotográficas, com exceção das fotografias captadas pelo telefone celular.
Não questionei. Mas aquele mandamento, com certeza jurídica, era destituída de fundamento. Ora bolas. Ambas cumprem a mesma função. Se uma há de trazer prejuízo, por que a outra não?
Um lapso de raiva me acometeu. Nada falei. Mas conjecturei mentalmente qual seria o fundamento para tal proibição. Uma porque a norma, se regulamentada, para ser obedecida, deve ser escrita e afinada aos mandamentos nucleares da ordem jurídica. Duas porque, se não há prejuízo ou violação a direito alheio, a proibição se torna inócua. Sempre agi nos estritos limites da lei. Não seria ela quem me impediria captar um instante que nunca mais veria acontecer.
Fiquei quieto. A máquina às mãos: engatilhada.
Necessário fosse, iria desobedecer. O que se faria? Iriam me prender? Que o fizessem, prisão ilegal, fora dos parâmetros permitidos. A desobediência tem seu lugar, mormente ante pequenas injustiças. Mas também ponderei. A mulher cumpria ordens, assim como qualquer um de nós, submetidos a um regime de trabalho estrito, com normas a serem cumpridas e obrigações a serem obedecidas. Não foi meu caso.
Voltou à sala.
- Entre.
Dirigi-me à sala de cirurgia. A enfermeira, ao vislumbrar a máquina pronta para trabalhar, fez uma cara feia, de quem me julgava um desobediente. Ignorei. Sentei-me a aguardar o rebento. Não foi necessário qualquer tipo de discussão. Não era lugar pra isso. Ignorar é sempre um ato de cordialidade a quem mereça. Insistiu na proibição. A médica, atenta, disse à enfermeira:
- Ele vai tirar as fotos da forma que preferir. A médica responsável sou eu.
Ufa! Não precisei gastar o juridiquês. O tempo era deveras valioso para qualquer tipo de interpelação. Afinal, eram quatro horas da manhã de um dia intenso e sem descanso.
A cada ângulo, um clique, um instante eterno para a posteridade. A luz era favorável e os dedos funcionavam em harmonia com a mente. Nessas horas, há de se encontrar o equilíbrio entre o pai e o fotógrafo. Aquele é vulnerável. Esse deve ser atentamente frio e calculista.
Nascia. Uma pequena, alva, de corpo inofensivo que chorava, dando com os ruídos sonoros que demarcam o princípio da vida extrauterina. Lembrei das vidas que há pouco tempo havíamos submetidos à prisão por afronta à lei penal. Vidas tão vivas quanto aquela que à nossa vinha, que de alguma forma se perderam para se encontrarem no cárcere, destituídas da mesma liberdade que à minha filha era franqueada. Desobediências graves. Mas não se comparam à minha justificada desobediência.
Como fotógrafo, à mente vêm instantes e não imagens. As imagens são o produto final do que a mente revela em contato com o instante. Aquela pessoinha, de olhinhos rasgados, me trouxera à lembrança o passado dos seus antepassados, ambos, de ambas as partes, um dia vindos de longe para aqui se assentarem, em busca de algo melhor. Celina daria continuidade àquilo tudo. Ou não. Pensei naquilo que não presenciei. Os antepassados japoneses migrantes com o fim do nosso escabroso sistema de escravidão. Os antepassados italianos e espanhóis, de minha parte, junto àqueles, mantinham vivo o sangue, miscigenado, continuado nas artérias daquele recém-nascido, que vinha com beleza e saúde. Qual será a sua obra? Não sei. O tempo cuida.
O fotógrafo em mim misturou-se ao escritor. Escrevia o momento em imagens, revestindo-lhe os traços de uma espontaneidade automática. A missão ia além. Revelar o incompreensível.
A meu ver, a fotografia deve ser assim, espontânea. Nada de poses. As poses maculam a verdade do instante. Foto pousada reproduz imagens viciadas. As outras, não. A vida não é fingida. É real, e assim deve ser registrada.
Ao cabo, a médica dispôs a criança no colo da mãe, das quais me aproximei, tentando esvair-me de qualquer espécie de lógica. Apenas contemplei. O instante primeiro da vida. O marco de alegrias e infelicidades vindouras que em algum momento eu conheceria.
Já em meu colo, busquei o vazio da mente ao silêncio. Olhei profundamente aqueles pequenos olhos que mal se abriam, com muitas perguntas sem respostas: “De onde você vem”? “Como é o lugar de onde viera”? “Não vai ser fácil. Espero que goste daqui”.
Dali pro quarto. Um dia e meio de recuperação. Finalmente, a alta médica.
Enfim, fomos pra casa.
Sem perder tempo, fui ao cartório para registrá-la. Uma fila imensa. Não importava. Não tinha pressa. Agora, nossa vida era menos nossa e mais dela. O barulho ininterrupto do cartório brotava-me palavras. Em pé mesmo, comecei a rascunhar essas memórias. Do lado de dentro, pessoas se uniam em matrimônio, outras registravam óbitos de familiares. Eu apenas aguardava. E escrevia.
Interrompi o rascunho ao chamado da minha senha. Um escrevente alto e forte me atendeu. Pedilhe o registro da criança, entregando-lhe prontamente os documentos necessários ao ato. Certidão de casamento e documento dos pais.
- Escreva o nome dela de forma legível e por extenso.
Naquele átimo, novamente a lembrança dos antepassados que teriam sua marca registrada na vida que nos chegara:
Celina Torres Bigalia Komatsu Canossa.
Nome extenso, e por extenso. Nome obeso. A mistura de todos nós. Dos que vieram, dos que são, dos que se foram e dos que ainda serão.
Uma genuína brasileira.
Com a certidão em mãos, saí feliz. O registro foi feito.
Ali, começava a vida civil da minha filha, sujeita a todos os direitos naturais e aqueles outros, dispostos pela força da lei.
Vida nova aos mais velhos, pai e mãe, avós e bisavós, que ora renascem e de alguma forma se renovam, para o marco do presente que se fará memória à posteridade.
O resto, está por vir.
Os instantes, a se registrar.
As emoções, a se lavrar.
A vida, por (re)começar.
Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito
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