Opinião

Quando o prefeito compra briga demais, a cidade para de cooperar

"O desgaste político não explode de uma vez: ele se acumula em atritos pequenos, cria isolamento, mata a confiança e, quando o gestor percebe, já está governando sozinho"
Da Redação
12/12/2025 às 15h55
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Jonathas Magalhães

 

Não é a “grande crise” que derruba a maioria dos governos. É a soma das pequenas brigas diárias — aquelas que parecem bobas, mas vão fechando portas, queimando pontes e criando inimigos em série. Um dia você acha que está apenas “sendo firme”. No outro, descobre que ninguém mais ajuda, ninguém mais avisa, ninguém mais defende. E aí o governo começa a travar por um motivo simples: a cidade para de cooperar.

 

Na prática, o gestor vai montando justificativas para cada atrito: “aquele vereador é chato”, “a imprensa pega no pé”, “tem gente que só critica”. Só que, quando isso vira rotina, não é mais sobre os outros. É sobre a bolha em volta do poder — um ambiente que filtra a realidade, transforma discordância em ataque e empurra o líder para o vício mais caro da política: comprar briga pequena como se não tivesse custo.

 

A bolha do poder não é conforto. É cegueira. Ela se forma quando o entorno começa a “proteger” o gestor do que incomoda: chegam só os recortes que agradam, só os números que brilham, só as falas que confirmam o que ele já pensa. O que contraria vira ruído. O ruído vira “gente difícil”. E, nesse ponto, o governo troca estratégia por reação.

 

O problema é que a política não é um tribunal de quem está certo. É um ecossistema de convivência. Governabilidade é a arte de sustentar cooperação mínima entre interesses diferentes. E cooperação não nasce de humilhação, grito ou ironia. Nasce de respeito, previsibilidade e capacidade de separar o que é princípio do que é birra.

 

Por isso, o erro raramente é comprar uma briga grande. O erro é comprar várias pequenas. Porque briga pequena dá sensação de controle: “estou impondo respeito”. Só que cada atrito consome um pedaço do que realmente mantém um governo de pé: tempo, energia, confiança, aliados, servidores, imprensa local, lideranças comunitárias. E o custo é cumulativo.

 

Uma hora, a soma desses atritos vira reputação. Não importa quantas vezes o gestor “teve razão”. A cidade guarda o símbolo: “não ouve”, “é arrogante”, “gosta de bater de frente”, “não sabe lidar”, “é mimado”. E quando essa imagem gruda, não é um post bem escrito que resolve. É mudança de postura sustentada no tempo.

 

Aqui entra uma analogia simples — e cruel — que todo mundo entende: o condomínio.

 

Pensa no síndico que briga com todo mundo. Briga com o porteiro, com o morador do 101, com a moradora do 202, com o prestador, com o grupo do WhatsApp. No começo, ele até parece “firme”. Depois, ninguém coopera. A lâmpada queima e ninguém avisa. O vazamento começa e ninguém ajuda. A obra atrasa e todo mundo torce contra. Até que estoura um problema sério — e ele descobre que está sozinho.

 

Na política é igual. Governo não é só caneta. Governo é rede. É um conjunto de relações — muitas delas silenciosas — que fazem a máquina andar. Quando o gestor vira especialista em atrito, ele destrói o que mais precisa: colaboração espontânea. E aí, em vez de governar, ele passa a apagar incêndio que ele mesmo ajudou a acender.

 

O mais perigoso é que esse processo vem acompanhado de autojustificativa. O líder vai se convencendo de que “não tem jeito”, de que “só ele trabalha”, de que “os outros são contra”. E, quando percebe, está preso num ciclo: reage mais duro para não parecer fraco; fecha mais o entorno para “evitar desgaste”; aumenta a distância para “preservar autoridade”. Só que autoridade sem acesso vira isolamento. E isolamento vira derrota.

 

Existe um antídoto simples, quase anticlimático, que evita metade das crises: um filtro antes de comprar a briga.

 

Antes de responder, reagir ou tentar “lacrar” em público, o gestor deveria passar por três perguntas:

 

1. Isso é princípio ou é ego?

 

Se for ego, o custo vai ser maior que o ganho.

 

2. Isso precisa ser público ou é bastidor?

 

Se é bastidor, levar pro público é gasolina.

 

3. O que acontece se eu não brigar?

 

Muita briga só existe porque alguém topou brigar.

 

Esse filtro não é sobre “ser bonzinho”. É sobre ser eficaz. A energia política é finita. Quem gasta tudo em conflito pequeno fica sem força quando chega o que realmente importa.

 

No fim, quase todo gestor dentro da bolha tem uma explicação razoável para cada conflito. O problema é que a política não soma explicações. Ela soma consequências.

 

As consequências chegam em silêncio: primeiro você perde a boa vontade; depois perde a confiança; depois perde o benefício da dúvida. Quando percebe, já é tarde — porque o desastre político raramente começa com uma grande briga. Ele começa com a coleção das pequenas, compradas uma por uma, com a certeza de que “não é nada”.

 

E a pergunta que fica — desconfortável, mas necessária — é esta: você está governando com a cidade… ou contra ela?

 

Jonathas Magalhães é publicitário, especialista em comunicação pública há 25 anos e fundador da Pública On. Acredita que política sem proximidade não é política — é administração à distância

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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