Por Cassio Betine
A morte sempre foi aquele assunto meio pesado, cercado de silêncio e mistério. Mas olha só: nos últimos tempos ela também virou terreno para tecnologia e inovação. Se antes a despedida se resumia a velório, enterro ou cremação, hoje já existe um verdadeiro cardápio de opções que mexem com memória, presença e até com a forma como a gente continua convivendo com quem se foi – e a coisa não para de evoluir.
Um dos negócios mais curiosos é a tal da memória digital. Já tem serviço que guarda fotos, vídeos e até mensagens programadas para serem enviadas depois que a pessoa morre – bom lembrar que muito antigamente, nem foto havia. É como se fosse um “cofre virtual” cheio de lembranças. E não para por aí: algumas empresas estão criando experiências em realidade virtual, onde dá pra revisitar momentos da vida, como andar pela casa dos avós ou reviver uma festa de família. A ausência ganha uma nova cara — vira arquivo, vira experiência que pode ser acessada quando bate a saudade.
Os velórios e enterros também estão mudando. Hoje é comum transmitir cerimônias ao vivo pela internet, permitindo que parentes distantes participem. Mas já existem velórios híbridos, com hologramas mostrando imagens do falecido em momentos marcantes da vida. E na hora do enterro, surgem alternativas ecológicas: cápsulas biodegradáveis que transformam o corpo em árvore, urnas que se dissolvem na água ou processos que aceleram a transformação em solo fértil. Tem até satélite que pode levar as cinzas do ente para o espaço. A morte, nesses casos, deixa de ser só fim e passa a ser parte de um ciclo de renovação.
Agora, talvez o mais intrigante seja a reprodução virtual de quem partiu. Com inteligência artificial cada vez mais poderosa, já dá pra criar avatares digitais que imitam voz, gestos e até jeitos de pensar da pessoa. Esses “fantasmas digitais” podem conversar com familiares e até participar de encontros virtuais. É claro que isso gera polêmica, tipo, será que isso ajuda a lidar com o luto ou cria uma espécie de vida artificial que nunca acaba? O que parecia ficção científica já está batendo na porta.
Tudo isso mostra uma mudança cultural enorme. A morte não é mais só ausência, é também presença em novas formas. O corpo pode desaparecer, mas a memória, a imagem e até a interação continuam vivas em arquivos, hologramas e avatares (nas tais nuvens). O luto, que sempre foi marcado pelo vazio, agora pode ser vivido na companhia de simulacros e experiências digitais. É curioso, é estranho, mas é o futuro se infiltrando até no último ato da vida – aliás, além do último ato.
E se a gente olhar bem lá pra frente, coisa de 100 ou 200 anos, o cenário pode ficar ainda mais maluco. É possível, por exemplo, imaginar que não vamos só guardar lembranças, mas transferir a consciência para sistemas digitais (ou até orgânicos, vai saber…). Cemitérios poderiam virar bibliotecas de mentes, onde descendentes acessam não apenas fotos e vídeos, mas personalidades inteiras.
O velório talvez possa ter uma cerimônia de “migração de dados”, em que a pessoa deixa o corpo físico e passa a existir em um espaço digital. E quem sabe, em um futuro ainda mais distante, a morte seja vista não como fim, mas como uma mudança de estado – da carne para a informação.
No fim das contas, o que hoje parece ousadia tecnológica pode redefinir completamente o que entendemos por mortalidade. A morte, que sempre foi o limite intransponível da vida, talvez vire apenas uma troca de plataforma. E nesse novo mundo, lembrar de alguém pode não ser apenas recordar, de repente, pode ser, de algum jeito, continuar convivendo.
Cassio Betine: Pós-graduado em Tecnologias da Aprendizagem, Bacharel em Artes e Desenho Industrial. Coordenador e Mentor de Negócios e Eventos. Autor de livros, artigos e produtor de conteúdos diários sobre Tecnologia, Inovação e Comportamento. É empreendedor em outros negócios e fundador da F7Digitall.com – Tecnologia & Comunicação
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação