Por Antônio Reis
Semana passada foi noticiado que a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) autorizou as concessionárias do serviço de telefonia a retirarem das ruas os telefones públicos, o popular e carinhosamente apelidado orelhão.
Ninguém mais usa telefones de rua, outrora xodó dos brasileiros de baixa renda, da periferia, das mocinhas que namoravam a distância, dos pedidos de socorro à polícia e à ambulância. E claro, da molecada endiabrada que se divertia passando trote. Os ingratos trocaram a invenção brasileira pelos modernos smartphones.
O orelhão fez parte do cotidiano dos brasileiros. Os primeiros, da cor laranja, foram instalados em 1972 nas capitais e faziam apenas chamadas locais. Depois vieram os azuis para interurbanos. Anos depois, os orelhinhas para crianças e cadeirantes. No início dos anos 1980, os comunitários, que recebiam chamadas. Em 1992, as fichas foram substituídas por cartões.
Repórter de jornal naquela época sofria para atender a população que reivindicava orelhão no bairro; reclamava de vandalismo com o bem público, de aparelho que não funcionava, do mal atendimento da Telesp. As mulheres se queixavam do equipamento em frente a bar cheio de marmanjos, moradora denunciava que meninas do puteirinho iam em grupo usar seu orelhão.
O sistema Telebrás foi privatizado em 1998 e multinacionais assumiram as companhias brasileiras (Telesp, Telemig e Telebahia, por exemplo). As múltis foram obrigadas pela Anatel, a título de contrapartida, a instalar e ficar responsável pelo funcionamento de ampla rede de orelhões. O objetivo era universalizar a comunicação telefônica no País. Em São Paulo, os orelhões ganharam as cores verde-limão e roxo.
A exigência da Anatel durou pouco, já que a privatização reduziu o preço do serviço de telefonia fixa, a ponto de a maioria adquirir uma linha (sonho de consumo das famílias de baixa renda) e aos poucos abandonar os telefones públicos. Com o passar dos anos, toda a população teve acesso a celulares, que inicialmente custavam os olhos da cara, ou melhor, os tímpanos das orelhas. Hoje, telefone fixo em residência é raridade.
O xodó nacional, mesmo obsoleto, pichado por grafiteiros, laranja ou verde-limão, faz parte da paisagem urbana de cidades grandes, médias e pequenas. Foi meio de comunicação entre famílias distantes, amores juvenis e socorro médico. Pela importância histórica, deixará saudade. Pelo tanto que me foi útil, só tenho a agradecer: “Obrigado, Orelhão. Vá com Deus”.
(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação