Por Thiago T. Canossa
Quatro horas da tarde.
Era sexta-feira.
O dia da semana em que renasciam esperanças consumidas pela utilidade das obrigações. O dia em que o sentido parecia aclarar-se na mente dos que ainda sentiam o ritmo da própria vida. Dia a partir do qual qualquer um podia aspirar a ser — ou ao menos acreditar ser.
Pegou as chaves do carro e saiu à procura de um nada pelas ruas da cidade, movimentadas pela expectativa de mais um fim de semana cuidadosamente planejado.
Sentou-se. Olhou o relógio: 16h.
O trânsito era excepcionalmente lento — ainda que compatível com o porte e o ritmo de uma cidade interiorana. Conduzia pelas avenidas observando a movimentação. Habituado, por força de sua natureza tímida, a manter os olhos baixos, ergueu a cabeça em direção ao sol, ainda vigoroso em seus raios. Conferiu novamente o painel: quatro horas da tarde. O relógio não mentia.
Estava ali. Parte integrante das fileiras de motocicletas, carros de marcas distintas, uma miríade de sons que dificilmente se harmonizariam sem esforço criativo.
Sexta-feira — anseio suficiente para que qualquer resquício de harmonia fosse violado.
Sem pressa, ao menos ali, podia divagar sobre pessoas, cores, cheiros.
Abriu os vidros. O bafo quente do verão tocou-lhe o rosto. Nuvens carregadas alternavam-se na tarefa de suavizar o sol, sem jamais anulá-lo. O sol tem brilho próprio, inescapável.
Buzinas, conversas dispersas, motores, suor, cigarros lançados ao ar.
Pensava que a maioria daquelas pessoas já não escutava os desejos das crianças que um dia foram. Depois de certa idade, a infância torna-se memória difusa, substituída por insígnias de status e progresso — mais pessoal que coletivo.
O trânsito seguia lento. Mas seguia.
Esqueceu a pressa. Pensava. Matutava. Às vezes sorria, sem motivo claro — apenas por sorrir, como se a felicidade pudesse ser um reflexo involuntário da simples existência.
Reparou no ciclista que serpenteava entre os carros com habilidade antiga.
Um senhor de chinelos, bicicleta envelhecida, galões de água cristalina cuidadosamente presos à estrutura. Chapéu de palha firme na cabeça. Rumo próprio.
Enquanto tantos imitavam modelos prontos, aquela figura parecia bastarse.
A imagem puxou-lhe a memória.
Lembrou-se de quando tinha dezessete anos. Andar de carro não lhe era permitido, embora o fizesse às escondidas. Não nutria grandes preocupações. A vida adulta ainda tardava. Mas os anseios não — eram urgentes por liberdade e por identidade.
Tinha uma bicicleta. Com ela atravessava a cidade como quem escapa do mundo e de seus ruídos exigentes.
Guardava desejos que não partilhava com ninguém. Fantasiava cenas que não saberia sustentar na realidade. Faltava-lhe ousadia; as moças preferiam os eloquentes. Restava-lhe o silêncio.
No trânsito daquela sexta-feira, conduzia sem destino definido, lembrando-se.
Nada se compara à nitidez de uma boa lembrança.
Recordou-se do dia em que completou dezoito anos. Não avisou ninguém. Não celebrou. Apenas decidiu que se tornaria homem.
Quatro horas da tarde.
Pegou a bicicleta e pedalou até o único motel da pequena cidade. Na ingenuidade, acreditava que ali encontraria mulheres dispostas à escolha imediata, como num catálogo secreto da maturidade.
Na portaria, pediu uma suíte. Pagou o valor modesto com orgulho e apresentou o documento de identidade. O responsável conferiu e lhe franqueou a entrada.
Quarto 101.
Simples. Limpo. Cheiroso. Banho quente. Cama redonda sob um grande espelho. Deitou-se no centro e observou a própria imagem refletida. Pensou em tudo o que aquele espelho já teria testemunhado.
Era cedo. Não tinha pressa.
Tomou o catálogo disposto ao lado do telefone. Vasculhou as páginas: pratos, bebidas, drinques. Nada de mulheres.
Ali compreendeu o equívoco.
Devolveu o cardápio ao lugar. Sob o telefone, percebeu um pequeno caderno vermelho, de capa dura, sem identificação.
Sentou-se melhor na cama e começou a folheá-lo.
Páginas manuscritas em grafias e cores distintas. Fragmentos. Confissões. Narrativas breves. Vozes diversas. Havia ali desejo, paixão, encontro, ausência. Havia linguagem.
A cada página, algo nele se acendia — não no corpo, mas na mente. As palavras criavam cenas mais vívidas do que qualquer experiência concreta que pudesse ter vivido até então.
No quarto ao lado, ruídos e gemidos misturavam-se ao som abafado da televisão. Mas era o texto que o conduzia.
Percebeu, com surpresa, que o prazer não estava no que se fazia, mas no que se escrevia. Aquelas linhas transformavam o banal em intensidade. A linguagem não apenas narrava o desejo: produzia-o.
Tomado por impulso novo, pegou uma caneta.
Contou as páginas já preenchidas. Encontrou uma em branco.
Escreveu:
“Não me leia
se buscas fatos.
Sou feito de memórias
que nunca vivi. Aqui repousam verdades
inventadas,
corpos que se tocam
na superfície da palavra.
Sou desejo escrito,
mais duradouro
que qualquer gesto
esquisito
Se me leres,
acrescenta-te a mim.
O teu corpo
com tuas frases
simples assim”.
Ao terminar, sentiu o tremor. Não era o corpo que vibrava, mas a consciência. Descobrira que podia criar. Que podia suscitar imagens. Que podia transformar ausência em presença por meio de signos.
Ali, naquela página, não deixava a virgindade do corpo, mas a do autor.
Saíra homem — não pelo gesto que imaginara, mas pelo verbo que ousara conjugar.
Anos depois, no trânsito daquela sexta-feira, compreendia com nitidez o que à época apenas intuía: há experiências que não se vivem — inventam-se. E, ao inventá-las, tornam-se mais duráveis que o real.
O semáforo permanecia vermelho.
À sua volta, motores impacientes, buzinas, pressa. Pessoas correndo para viver o que acreditavam ser vida. Ele, parado.
Percebeu então que nunca fora o motel o seu rito de passagem, nem o corpo feminino o território a conquistar. Seu território sempre fora outro: a linguagem. Era ali que se arriscava. Era ali que penetrava. Ali, onde o desejo não dependia de consentimento alheio, mas de imaginação e coragem.
A escrita lhe dera o que o mundo ainda não sabia oferecer: a possibilidade de possuir sem tocar, de experimentar sem consumir, de eternizar o instante antes que ele apodrecesse no tempo.
Talvez por isso sorrisse.
O sinal abriu.
Os carros avançaram.
Ele também.
Enquanto os outros buscavam finais de semana, ele buscava frases. E algumas frases, mentiras verdadeiras, duravam mais que qualquer uma dessas sextas-feiras.
Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito
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