Opinião

O governo que criou um fake de si mesmo

"Como se o público fosse ingênuo a ponto de não conectar os pontos"
Da Redação
31/12/2025 às 12h01

Por Jonathas Magalhães

 

Quase três décadas trabalhando com comunicação, métodos e protocolos aplicados em mais de 200 municípios, e ainda me deparo com situações que desafiam qualquer manual.

 

Na comunicação existe um conceito chamado fluxo em duas etapas. A mensagem não vai direto de quem fala pra quem ouve. Ela passa primeiro pelos formadores de opinião, pessoas com credibilidade que filtram, interpretam e repassam. Gestões inteligentes entenderam isso há tempos. Usam essas vozes pra reforçar sua narrativa oficial com credibilidade emprestada.

 

Oposições fazem o mesmo, mas ao contrário. Constroem contranarrativas, questionam o discurso do poder, ocupam o espaço que a versão oficial deixa vazio.

 

Até aí, regra do jogo. Cada lado joga com suas peças.

 

O que não está no manual é o seguinte: o próprio governo, incapaz de bancar sua narrativa, criar uma voz paralela fingindo que não é ele. Uma espécie de versão alternativa de si mesmo. Como se ninguém fosse perceber. Como se o público fosse ingênuo a ponto de não conectar os pontos.

 

É o poste fazendo xixi no cachorro. O rabo jurando que balança o corpo. A banana convencida de que come o macaco.

 

Existe outro conceito que ajuda a entender esse comportamento. A espiral do silêncio diz que quando um grupo percebe que sua opinião virou minoria, ele tende a se calar, se esconder, se camuflar. É exatamente o que acontece quando uma gestão perde a credibilidade e resolve se disfarçar de voz independente. O poder fingindo que não é poder. O governo com vergonha de ser governo.

 

O sintoma mais comum desse tipo de estratégia é a execução amadora. O disfarce dura até você olhar quem aplaude. E ali, invariavelmente, estão os mesmos rostos. Aliados, auxiliares, apoiadores de primeira hora, todos entregando o jogo sem perceber que a máscara caiu.

 

Festa surpresa com o aniversariante no grupo de organização.

 

O problema não é tentar influenciar a opinião pública. Isso toda gestão faz, faz parte. O problema é subestimar a inteligência de quem assiste. Achar que embalagem nova esconde produto velho. Que basta trocar o rótulo pra ninguém sentir o gosto.

 

Uma vez um grande amigo me disse: "Bobo ralheia, mas não acaba." Achei engraçado na hora. Hoje sei que era aviso.

 

Nelson Rodrigues foi mais cirúrgico. Disse que os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela competência, mas pela quantidade, porque são muitos.

 

Olhando certas estratégias de comunicação por aí, começo a achar que Nelson foi otimista.

 

Jonathas Magalhães é publicitário, especialista em comunicação pública há 25 anos e fundador da Pública On. Acredita que política sem proximidade não é política — é administração à distância.

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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