Por Cassio Betine
Se tem uma coisa que a ficção científica sempre adorou foi imaginar a destruição da humanidade. Seja por um asteroide gigantesco, uma revolução das máquinas, uma pandemia devastadora ou alienígenas exterminando as pessoas, o ser humano sempre deu um jeito de criar esse tipo de cenário bem dramático para o nosso fim, não é mesmo? Mas, se você conversar com alguns caras que estudam isso a fundo, vai perceber que o real perigo pode ser bem menos cinematográfico e muito mais silencioso do que a gente imagina.
Há quem defenda com argumentos bem sólidos que a humanidade pode sim ser extinta nos próximos, digamos, quinhentos anos. E não seria por causa de uma explosão épica, mas simplesmente porque estamos parando de ter filhos e esgotando o lugar onde vivemos.
Quem está puxando essa conversa com bastante força é o paleontólogo e biólogo Henry Gee, um ex-editor sênior da revista Nature. A tese do cara é direta e um pouco desconfortável. Ele acredita que todas as espécies de mamíferos têm um prazo de validade, e nós já estamos dando todos os sinais de que entramos na fase final do nosso ciclo.
Para ele, a combinação entre a destruição do nosso habitat, a diminuição da nossa diversidade e, principalmente, a queda brusca nas taxas de natalidade cria um negócio que ele chama de "débito de extinção". É aquele ponto em que o estrago já foi feito, mas a conta só chega um pouco mais tarde.
E os dados demográficos parecem dar razão a esse alerta. Estudos como os do Institute for Health Metrics and Evaluation, publicados na conceituada The Lancet, mostram que a taxa de fertilidade no mundo inteiro está despencando nos últimos tempos. E, segundo os estudos (e a matemática), para uma população se manter estável, cada mulher precisa ter, em média, cerca de 2,1 filhos.
Só que quase o mundo todo já está bem abaixo disso, e a tendência é piorar. Então, a matemática é simples: se nascem cada vez menos pessoas, a população envelhece, a capacidade de manter a sociedade funcionando desmorona e a gente entra numa espiral descendente sem volta.
Olhando para essa teoria, realmente a coisa parece ter sentido. Mas é aí que me pego questionando se esses caras não estão encarando a humanidade como se fôssemos apenas mais uma população de carnívoros e primatas descontrolados. Será que eles consideraram que a gente tem um trunfo nas mãos que nenhuma outra espécie jamais teve, tipo, a capacidade de transformar a própria biologia através da ciência e tecnologia?
Pensa junto. No mesmo ritmo em que as taxas de natalidade despencam, a inteligência artificial, a biotecnologia e a medicina regenerativa avançam a passos largos – falamos sobre isso sempre por aqui. E essas evoluções não servem só para fazer as pessoas ficarem vivas até cem anos, mesmo que acamadas, mas sim para garantir que tenham mais vitalidade, clareza mental, como a saúde de um jovem de trinta.
E se a ciência conseguir dobrar ou triplicar o nosso tempo de vida saudável, toda a teoria do fim da humanidade logo aí no futuro pode ir por ladeira abaixo. Olha só, a necessidade de ter uma enxurrada de novos nascimentos a cada década perde muito do seu peso quando as pessoas que já estão aqui vivem muito mais tempo e continuam plenamente ativas. Isso a gente já vem presenciando nos últimos séculos.
Além do mais, a própria questão da fertilidade pode ser completamente reescrita. Tecnologias como a reprodução assistida avançada, o rejuvenescimento celular e até a gestação fora do corpo humano deixam de ser papo de filme e passam a ser possibilidades reais para o futuro.
Soma isso ao fato de que a automação e a robótica podem assumir o trabalho pesado, reduzindo o impacto ecológico no planeta sem exigir que a gente tenha bilhões de pessoas trabalhando para manter a civilização de pé.
No fim das contas, acho até que essa teoria da extinção nos próximos quinhentos anos possa servir como um aviso biológico valioso, uma espécie de chacoalhão, de luz amarela para não pensarmos que não é nada. Mas talvez a teoria subestime o nosso maior superpoder: a teimosia em encontrar saídas criativas para dilemas que pareciam fatais.
A tecnologia pode não ser perfeita, mas enquanto formos capazes de inovar e redefinir o que significa envelhecer e viver, o nosso fim pode estar muito mais distante do que os gráficos pessimistas prevêem. Bom, só estando vivo para ver no que isso vai dar!
Cassio Betine: Pós-graduado em Tecnologias da Aprendizagem, Bacharel em Artes e Desenho Industrial. Coordenador e Mentor de Negócios e Eventos. Autor de livros, artigos e produtor de conteúdos diários sobre Tecnologia, Inovação e Comportamento. É empreendedor em outros negócios e fundador da F7Digitall.com – Tecnologia & Comunicação
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