Por Antônio Reis
Sempre gostei muito de cinema, creio, como a maioria das pessoas que já passaram dos 50. No meu caso, teve um agravante. Quando moleque morava perto de um cinema e para ir ao colégio, passava em frente dele: o Cine Paraíso, em Araçatuba. Cinema de rua e de periferia, sim senhor. E com orgulho. Em dia de Mazzaropi, às 3 da tarde, sob sol escaldante, mesmo não sendo fim de semana, a fila para comprar ingresso dobrava quarteirões.
Assisti de quase tudo, de românticos aos de ação; de comédia, a drama; de aventura, a guerra; de documentário, a musicais (meus preferidos), policial e faroeste. Nunca fui fã de terror, ficção científica e chanchada. A minha preferência talvez tenha me afastado dos hollywoodianos e dos comumente indicados ou agraciados com o Oscar. Meu gosto não consta da lógica mercadológica de Hollywood e da Academia. Azar meu, claro.
Embora assistindo a quase todos os gêneros, quando tomei ciência do porquê o Brasil é Brasil, descobri o cinema nacional e nele produto de qualidade que nos orgulha. Passei a acompanhar Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, João Batista de Andrade, Arnaldo Jabor, os irmãos Barreto (Fábio, Bruno e Luiz Carlos Barreto), Hector Babenco (embora argentino, é catalogado como produção nacional) e outros menos conhecidos.
Mesmo com as dificuldades impostas pelas regras do mercado, via sempre filmes nacionais, fosse em circuito comercial ou espaços alternativos, pela TV Cultura (Fundação Padre Anchieta) e hoje acompanho pelas plataformas de streamings. Torci muito quando o "Quatrilho", "O que é isso companheiro", "Central do Brasil" concorreram ao Oscar, geralmente na categoria "melhor estrangeiro".
A cada derrota dos nossos, impossível não ser vitimado pelo complexo de vira-latas. "Melhor filme estrangeiro" não significa descarte do idioma inglês. O empecilho seria o português, a língua periférica que nos afasta do Nobel de Literatura? Maracutaia no Oscar, como anos depois, em 2023, descobriram jabaculê envolvendo jurados e filmes que concorriam ao Globo de Ouro?
A sabedoria popular ensina que água mole fura pedra dura. Batata. Em 2025, "Ainda estou aqui" faturou um Globo de Ouro com Fernandinha para, em seguida, garantir ao cinema nacional o primeiro Oscar, o de filme estrangeiro. Assisti à solenidade com emoção e vinho.
Este ano, "O agente secreto" rendeu a Wagnão o troféu de melhor ator de drama e o de melhor filme de língua não inglesa. É a primeira vez que uma produção nacional conquista duas honrarias no considerado aperitivo para o Oscar. Vou providenciar um bom merlot para a noite de 15 de março.
Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação