Por Antonio Luceni
Anos atrás li um artigo intitulado “Cansei de ser professor”. Ainda estava em início de carreira, com todo aquele “gás” próprio dos iniciantes, buscando mudar o mundo por meio das teorias e ideias lidas e discutidas no magistério, o saudoso CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério), ao qual debito, até hoje, as bases do que sou como profissional. Aquele artigo contrastou com a imagem que concebia acerca da sala de aula. Claro, não era alienado. Tinha consciência das pedras no meio caminho do processo de ensinagem-aprendizagem. Até porque a vida toda fui estudante da escola pública, e na periferia. Mas a ideia de “cansar de ser professor”, para mim, soava como algo triste e frustrante.
Minha inclinação à sala de aula – já contei algumas vezes em diferentes oportunidades, é iniciada ainda criança, com cerca de 5 ou 6 anos, a partir de sonhos reiterados numa sala de aula, sobre a casa em que eu e minha família morávamos, num fundo de quintal, na capital paulista. Nessa sala de aula, havia muitas pessoas, na maior parte, adultas, e eu, criança, ensinando a todas elas. Na prática, comecei “lecionando” para colegas de classe e para alguns de meus irmãos, nessa ou naquela tarefa mais complexa. Quando terminei o 1º grau (hoje, Ensino Fundamental), não deu outra: ingressei no magistério. Foi no CEFAM, entre minha adolescência e início da juventude, que pude mergulhar nesse universo tão rico e importante da Educação e, até hoje, com meu “escafandro educacional”, persisto nesse mergulho.
Já atuei nos mais diversos níveis de ensino, tanto nas redes públicas (municipal e estadual) quanto na particular. Em todos eles, experiências para contar, boas e ruins. Nos últimos dez anos, dedico-me à rede pública federal, com dedicação exclusiva; algo que busquei ao longo dessa minha jornada. Relato esse percurso no sentido de dizer que já vivi de quase tudo na carreira como professor, inclusive a falta de interesse por ela.
Ninguém mais quer ser professor.
Os cursos de licenciatura, mesmo nas universidades mais concorridas, estão com boa parte das vagas não preenchidas. E por quê? Por vários motivos, entre os quais: desvalorização da carreira, condições de trabalho precarizadas, má-formação docente, baixos salários.
Houve tempo no Brasil em que a carreira de professor/a estava no mesmo nível dos profissionais da área jurídica, como promotores e juízes. Fotografias de época mostram professores/ras bem-vestidos/das, saindo de seus fuscas (carros caros, nesse tempo), em salas de aula com mobiliários em perfeitas condições etc. Residiam em casas próprias, ainda que financiadas, e as viagens de férias ocorriam rotineiramente, incluindo para o exterior. Todos diziam com orgulho: “sou professor/a”.
As escolas não caíam aos pedaços, os materiais para uso didático eram abundantes e não era preciso professor/a tirar dinheiro do próprio bolso para produzir um banner ou qualquer outro material de reforço, comprar bolo e refrigerantes para os aniversariantes do mês, festejar o dia das crianças ou qualquer outra data comemorativa. As altas temperaturas, como as da nossa região, eram amenizadas com condicionadores de ar ou com construções adequadas para o clima.
As escolas de formação do magistério, nos moldes do CEFAM, ofereciam condições para formação de seus estudantes, incluindo bolsas de estudo, a fim de que estes se dedicassem integralmente ao que faziam. Nada de empresas vendendo diplomas por meio de cursos a distância questionáveis. O resultado não poderia ser diferente: profissionais bem-formados, aptos para ingressarem no mercado de trabalho, cumprindo o propósito com que se comprometeram. (Anos depois tomei conhecimento, por meio de uma pesquisa de mestrado, que o Projeto CEFAM foi considerado o segundo melhor do mundo, ficando atrás somente de um outro similar, na Austrália).
Em relação a salários, o que dizer? A rigor, professores/ras precisam cumprir jornadas exaustivas, lecionando em dois ou três períodos, duas ou três escolas, de modo a garantir as necessidades básicas de suas famílias. Quando não, fazer um biscate, vendendo produtos de catálogos diversos a fim de complementarem a renda. Cobranças e mais cobranças inócuas, com burocracias apenas para alimentar traças e cupins (reais ou virtuais), e, com isso, consumindo os finais de semana no preparo de aulas e correções de provas e trabalhos, comprometendo a saúde mental desses profissionais.
Em meio ao caos descrito acima, parecido com os ciclos dantescos, é claro que não há muita perspectiva em se desejar estar numa sala de aula, em buscar aperfeiçoamento numa carreira que mais adoece o profissional, ao invés de projetá-lo, animá-lo e fazê-lo continuar nela. Há as exceções de praxe, mas, como exceções, não avivam a grande massa.
Não estou com isso dizendo que não devamos perseguir a carreira do magistério, não. Eu gosto muito do que faço e minha situação profissional é distinta da maior parte dos meus colegas, infelizmente. Ainda assim, não vou aqui “romantizar” a carreira só porque é “dia dos professores”. Como disse Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é crise; é projeto”.
Para se ter um “feliz dia dos professores” há que se valorizar a carreira do magistério, oferecer condições de trabalho para esses profissionais, com infraestrutura e todo o resto necessário para um bom trabalho dentro e fora da sala de aula. Além, por óbvio, salários condizentes à formação e às exigências feitas aos professores/ras. Do contrário, é só palavrório de quem não tem compromisso nenhum com a Educação.
Antonio Luceni é doutorando em Artes pela UNESP, câmpus São Paulo, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras
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