Por Jean Oliveira
Tem dia em que a gente acorda já cansado, antes mesmo de colocar os pés no chão. A cabeça dispara antes de o despertador tocar, o sono foi leve, picado, e aquela sensação de que está devendo algo — no trabalho, em casa, para todo mundo — começa a apertar o peito. E quando alguém pergunta se está tudo bem, a gente responde no automático: “está sim”. Não porque esteja. Mas porque dá medo de parecer fraco, de ser julgado, de não dar conta.
Por não encararmos que não estamos bem, e por varrermos a ansiedade para debaixo do tapete, a incidência de depressão e de transtornos de ansiedade mais que dobraram na última década. Jovens lideram as internações. A exaustão emocional deixou de ser exceção.
Em artigo publicado na Veja, o médico Claudio Lottenberg chama atenção para o que já está evidente: a saúde mental se transformou em uma urgência pública. Não é modismo. É reflexo de um modo de vida que cobra demais e acolhe de menos.
INTERNET E COBRANÇA
Vivemos conectados o tempo todo. Comparados o tempo todo. Cobrados o tempo todo. Descansar parece culpa. Desligar o celular virou quase um ato de rebeldia.
A conta chega. Em forma de insônia, irritação, crises de ansiedade, afastamentos do trabalho, conflitos familiares. A mente não foi feita para funcionar sob pressão permanente.
E ainda há quem trate sofrimento psíquico como exagero.
E OS LIMITES?
A verdade é simples: estamos ultrapassando limites sem perceber. E isso não se resolve com frases motivacionais ou campanhas pontuais. É preciso ambiente de trabalho mais saudável, escola atenta aos sinais precoces, políticas públicas consistentes e, sobretudo, menos julgamento e mais escuta.
Falar sobre saúde mental não é sinal de fragilidade. É sinal de maturidade social. Porque, se ninguém aguenta mais, fingir que está tudo bem não é força. É negação.
Jean Oliveira é psicólogo e jornalista
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