Opinião

Meus heróis vestem capas

"Os livros, ou melhor dizendo, a literatura salva. E que bom seria se mais pessoas pudessem ser salvas dessa maneira"
Da Redação
23/04/2026 às 16h04
Foto: Divulgação/Arquivo pessoal Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Manu Zambon

 

Chegamos em mais um Dia Mundial do Livro, que desde 1995 é celebrado no dia 23 de abril, graças à Unesco, com apoio da União Internacional de Editores. A data foi escolhida por ser o dia que marca o falecimento de grandes escritores, como William Shakespeare e Miguel de Cervantes.

 

Bom, mas o que essa data realmente tem para nos revelar em pleno 2026? Uma era pautada pela velocidade ultrassônica da informação, pelas ferramentas de inteligência artificial, pelos cancelamentos, pelos esgotamentos físicos e mentais, pela performance digital, pela violência crescente contra grupos minoritários e por centenas e milhares de inseguranças provenientes do capitalismo e tiranias variadas - de “líderes” de mentalidade “variada”, para não dizer outra coisa. 

 

E agora, meu artigo de fato começa, de forma idealista e sem levar em consideração políticas públicas que deveriam garantir justiça e dignidade a todos. Aqui, a questão é: em pleno 2026, nossos heróis vestem sim, capas. Alguns, vestem capas duras, outras são mais antigas, estão praticamente se desfazendo, algumas são novinhas e minimalistas. Capas coloridas, cheias de design. Os livros, ou melhor dizendo, a literatura salva. E que bom seria se mais pessoas pudessem ser salvas dessa maneira. 

 

No meu caso, o resgate foi praticamente literal. Eu tinha meus 13 anos, mais ou menos, já havia lido vários gibis da Turma da Mônica e alguns clássicos infantis. Mas nessa idade, me encontrava em um limbo onde nenhum livro chegava. Foi quando li Pedro Bandeira, A hora da verdade, e vi que poderia encontrar histórias que se conectavam comigo. 

 

Fiquei animada. Fui na estante da minha avó e comecei a buscar outros livros. Senti que estava prestes a abrir a janela para o mundo. Encontrei livros que não eram muito para a minha idade, confesso, mas eram os que estavam à disposição. 

 

Enquanto minha mãe se ocupava das minhas irmãs gêmeas, que eram bem pequenas ainda, e minha vó viajava para ajudar a cuidar do neto recém-nascido, fui lendo os livros que tinham os títulos mais legais, até chegar em As aventuras de Sherlock Holmes. Me lembrei que a minha vó sempre falava que um dia eu deveria ler Sherlock. 

 

Corta para mim, com 20 anos, em São Paulo pela primeira vez, na Bienal do Livro, com dinheiro contado para comprar, exclusivamente, a obra completa de sir Arthur Conan Doyle. Saí de lá abraçada a um box de livros que preservo até hoje, com elevado ciúme. Os livros salvaram aquela menina de 13 anos que, por estar sozinha, poderia ter feito escolhas erradas, mas foi pega pelas histórias. 

 

Como disse, infelizmente nem todos chegam a esses heróis de capas - seja pela falta de oportunidade, de incentivo, condição social ou por simplesmente terem se rendido ao scroll das redes sociais. O Brasil lê pouco. Em 2024, de acordo com a 6ª edição da Retratos da Leitura no Brasil, que avalia o comportamento do leitor brasileiro, o País perdeu quase 7 milhões de leitores em quatro anos. 

 

Essa perda resultou numa conclusão histórica, e triste: a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores. Por outro lado, a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, divulgada em março deste ano pela Câmara Brasileira do Livro e Nielsen BookData, mostra que o consumo de livros avançou no Brasil em 2025.

 

Dezoito por cento das pessoas com 18 anos ou mais adquiriram ao menos um livro nos últimos 12 meses. O crescimento foi de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o que representa cerca de 3 milhões de novos consumidores no período. 

 

Neste Dia Mundial do Livro, especialmente, te convido à reflexão - que foi um dos motivos que me fez criar o meu site de divulgação literária, o LiterAll . Ser um leitor hoje, e não estou falando daquelas pessoas que usam a leitura para performar sobre quantidade de livros lidos, é escolher, naquele tempinho que sobrou na correria do dia a dia, abrir um livro e ler, nem que seja uma página por dia. 

 

Escolher ser salvo por esse herói de capa também é escolher a profundidade em vez da distração. Escolher a companhia de personagens, às vezes meio maluquinhos, às vezes românticos demais, às vezes vilões demais - viva a ficção -, é se salvar das relações tóxicas que nutrimos com os recortes perfeitos, e falsos, que povoam as redes sociais. 

 

Abrir um livro é um ato de resistência. É permitir ser atravessado por verdades, vidas, dores, esperanças e muitas outras coisas que povoam as páginas de uma obra. Histórias ampliam vozes, rompem cordas que nos prendem, e nos aproximam, muitas vezes, de quem somos. Por isso, neste 2026, neste Dia Mundial do Livro, decretamos que, ler é resistir, existir e coexistir com esses heróis de capa.

 

Manu Zambon é jornalista há 19 anos, empreendedora da área da comunicação e criadora do site LiterAll - Tudo sobre Literatura. É criadora do clube de leitura Sociedade do Livro

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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