Por Hélio Consolaro*
As vezes, os fatos mais surpreendentes acontecem debaixo do nariz do cronista. Aí vou remoendo, interpretando para ver se no subtexto do fato há lições. Se houver o duplo sentido, vale a pena escrever uma crônica. Para o cronista, uma briga não é apenas uma briga.
Eu estava numa casa noturna de luxo em Araçatuba (não frequento apenas o Belisco), quando ouvi as mulheres da mesa elogiarem um penteado afro de uma das garçonetes. Aqueles arranjos cheios de tranças. Realmente, era uma elegância de africanidade.
De repente, minha colega loiríssima e de olhos azuis, aquela que não devia fazer nenhuma pergunta porque nunca ia usar tal penteado:
- Isso pesa muito?
- E o seu cabelo pesa? - devolveu a pergunta em forma de pergunta cortante.
Tais perguntas têm duas interpretações. Sentido subentendido. "Isso pesa muito": ser negra é difícil? E você sendo branca, loira, o cabelo não deve pesar nada. O branco é o que manda: "E o seu cabelo pesa?".
Sentido literal, ao pé da letra: "Isso pesa muito?". Talvez a pergunta se devia a querer saber apenas uma informação, a loira de olhos azuis quisesse presentear uma amiga afrodescendente. A garçonete não entende de como uma branquela quisesse tal informação, já que não usaria nunca o arranjo afro em sua cabeça. Foi mesmo bullying provocado por uma pergunta malfeita.
Acredito que o motivo da briga foi o racismo de ambos os lados (ação e reação). Se não tivessem preguiça de conversar, teria sido um grande papo. O conflito não virou um bafão, mas entrou o dono do estabelecimento, foram lá para o escritório. Felizmente, houve pedido de desculpas e não deu polícia.
Aos trancos e barrancos, o Brasil, o país da miscigenação, está encontrando o caminho da convivência na diversidade. Sai até pescoção, mas a realidade está melhorando.
OS LENHADORES DE ARAÇATUBA
Vândalo destrói árvores em novo residencial de Araçatuba
Há pessoas entre nós em Araçatuba que devem ser descendentes dos pioneiros na derrubada das florestas (Mata Atlântica) quando matar índio e derrubar mata eram boas ações. No meu quarteirão, morreu Dona Ilma, uma das mais antigas moradoras. Sua casa era toda enfeitada, florida.
Os filhos venderam-na, os novos moradores não deixou nem gramíneas. A casa está exposta ao sol. O casal de moradores atuais, idosos, já foi questionado de todos os jeitos, mas a casa é deles, portanto podem fazer o que quiser, até prejudicar a coletividade. É o extremo direito da propriedade privada.
Esta notícia da matança de árvores recém-plantadas num conjunto habitacional tem o mesmo espírito. Com certeza, nem sabem por que nasceram.
Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperuna.
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