Opinião

LGBT pra quê?

"A vida da população LGBT+ é marcada, desde a infância, de modo geral, pelo menosprezo, pelo desdém, pela incompreensão, pela galhofa e pelas muitas violências, tanto emocionais e psicológicas quanto as físicas"
Da Redação
07/12/2025 às 07h24
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Antonio Luceni
 

Pra decorar festas, casas, clínicas e comércios em geral?

Pra produzir noivas, debutantes, rainhas e princesas do carnaval?

Pra “lacrar”, com roupas faraônicas, em desfiles de moda e festas várias?

Pra montar coreografias, dançar, pintar, colar, fazer bolos e docinhos?

Pra dar algumas ideias “loucas e criativas”, nos mais diferentes temas e ocasiões?

Pra alegrar as rodas de conversa de amigos ou emprestar o ombro aos desabafos de “bests” com relação às atitudes dos machos escrotos escolhidos por elas?

 

Sim, muitos nos veem como objetos. Coisas com as quais realizam seus fetiches e futilidades diárias. Objetos a partir dos quais se entretêm, passam o tempo, desabafam etc. etc. etc. Usam e abusam de nós, mas, na “hora do ‘vamos ver’”, na hora em que, de alguma forma, possamos ser prestigiados ou validados, “pulam fora”, fingem que não nos conhecem, têm vergonha de nós...

 

A vida da população LGBT+ é marcada, desde a infância, de modo geral, pelo menosprezo, pelo desdém, pela incompreensão, pela galhofa e pelas muitas violências, tanto emocionais e psicológicas quanto as físicas. E isso chega ao insuportável, em alguns casos, porque está presente 24 horas por dia, 365 dias por ano em nossas vidas.

 

Entre os muitos livros conhecidos de Ítalo Calvino (1923 – 1961), há um de que eu gosto muito: “Cidades invisíveis”. Publicado originalmente em 1972, trata de cidades fictícias, narradas por Marco Polo a Kublai Khan, onde cada uma delas funciona como metáfora para aspectos da experiência humana relacionados à memória, desejo, efemeridade da vida etc. Parecido movimento faz Chico Buarque (1944 - ) em uma de suas canções (“A cidade ideal”) voltada para o público infantil, presente no álbum “Os Saltimbancos” (1976), aonde diz que  “A cidade ideal dum cachorro/ Tem um poste por metro quadrado/ Não tem carro, não corro, não morro/ E também nunca fico apertado”; já para a galinha, a cidade ideal “Tem as ruas cheias de minhoca/ A barriga fica tão quentinha/ Que transforma o milho em pipoca”.

 

Na verdade, a “cidade ideal” é aquela a partir da qual todas as demandas são consideradas e, de algum modo, atendidas. E, obviamente, os principais responsáveis para que essa cidade seja consolidada são os representantes escolhidos por nós para geri-la (prefeitos e vereadores), além das autoridades estabelecidas a partir de suas funções públicas (juízes, promotores, delegados, professores etc.).

 

Nossa Constituição Federal, por meio de Cláusula Pétrea, em seu artigo 5º, diz que “TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI”. Entretanto, há quem não concorde com isso e queira fazer de alguns cidadãos “homens e mulheres inferiores”, com menos valor social, ainda que estes paguem seus impostos, cumpram suas obrigações sociais, contribuam para uma sociedade mais justa, educada, criativa, inventiva, saudável por meio daquilo que exercem profissionalmente, mas que, por conta de sua orientação sexual ou de gênero, religião ou cor da pele são menosprezados/das/, aviltados/das e inferiorizados/das. Por vezes, por questões ideológicas, partidárias, religiosas, etárias, classistas ou um pouco de tudo isso ao mesmo tempo.

 

Neste domingo (7), ocorre em Araçatuba a 6ª edição da Parada do Orgulho LGBT+, com apoio do governo do estado de São Paulo e voluntários, mas sem nenhuma ajuda da prefeitura e da secretaria municipal de cultura, conforme nota publicada pela organização do evento: “... com a mudança de gestão [municipal], as pautas culturais voltadas à comunidade LGBT+ vêm sendo gradualmente silenciadas, sob justificativas administrativas que resultam na exclusão de iniciativas históricas e relevantes para a cidade”.

 

Na contramão disso, vemos vultosos shows voltados para os públicos sertanejo e gospel, por exemplo, com materiais vários divulgados nas mídias da prefeitura, incluindo chamadas de vídeo específicas, dirigidas à população, estimulando-a a comparecer às comemorações no mês de aniversário da cidade.

 

De novo, se “todos são iguais perante a lei”, por que insistem em silenciar e invisibilizar alguns de nós? Por que só somos “úteis” quando estamos a serviço de peças de marketing comerciais em determinadas datas do ano? Por que só nos procuram para “dar ideias”, embelezar corpos, templos, casas, cidades quando é oportuno? Por que insistem em nos tratar como “coisas”, jogadas fora logo após o uso?

 

É preciso, também, que nossa comunidade LGBT+ tome consciência dos papéis que exercemos (ou precisamos exercer) socialmente e que tomemos as rédeas de nossas próprias vidas e ações, abolindo a ideia de que precisamos da validação deste ou daquele agente social, deste ou daquele político, desta ou daquela “autoridade” a fim de exercermos nosso direito à cidadania e a uma cidade que seja viável para todos e todas. Abrirmos mão daqueles que nos oprimem e que nos tratam como objeto (um dos melhores instrumentos para isso é o voto).

 

É preciso que as autoridades públicas, eleitas e/ou constituídas, exerçam a gestão da cidade para todos, independentemente de classe social, cor da pele, credo, orientação sexual, gênero, faixa etária etc. etc. etc. A paz que queremos ter é a paz que devemos construir para todos e todas, livre de qualquer preconceito, intolerância e ego. Não há mais espaço no mundo para violência, ódio e dor. Como diz o poeta Milton Nascimento, “qualquer forma de amor vale amar”.

 

Com a palavra: o prefeito, a secretária de cultura, o presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais, a presidente da Câmara e demais vereadores, o ministério público e as outras autoridades responsáveis na construção de uma Araçatuba ideal.

 

Antonio Luceni é doutorando em Artes pela UNESP, câmpus São Paulo, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras.

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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