Opinião

João Palavrares

"Não era contra o mundo, era contra o lugar que o mundo não lhe reservara, ou se o reservara, ainda não o descobrira"
Da Redação
26/01/2026 às 21h17
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Por Thiago T. Canossa

 

João Palavrares, garoto sem vocação para nada, escolheu o curso de Letras por primeira graduação como quem escolhe uma sombra solitária num claro dia de sol quente: por falta de opções melhores. Opções havia, é claro, mas nenhuma lhe acenava com sentido. João desconfiava da utilidade na escolha das profissões como quem desconfia das promessas de um político. Não era contra o mundo, era contra o lugar que o mundo não lhe reservara, ou se o reservara, ainda não o descobrira.

 

Na universidade, entre teorias literárias, listas de leitura e professores que falavam como se estivessem eternamente se citando, foi fisgado pela linguística. Não a fundo, não como os devotos. Pegou dela só os ossos: signo, significado, ruído, pragmática, intenção. Conceitos que lhe pareciam menos ciência e mais dinamite. Guardou-os como quem guarda fósforos no bolso. Linguística, aos leigos, é ciência em matéria de linguagem. Estuda a língua de forma sistemática, analisa-lhe o uso em distintos contextos, passa pela fala, pela escrita (abrange até os gestos). Sua gramática é descritiva. Distinta daquela outra, divulgada e conhecida, que padroniza: a gramática normativa. E padronização era tudo o que João dispensava.

 

Palavrares resolveu querer entender, desse outro jeito, a língua. Queria ver o que ela fazia com as pessoas.

 

Descobriu cedo que uma frase não é uma coisa: é um acontecimento. Um “bom dia” pode ser um contrato. Um “tudo bem?” não pergunta estado. Um “eu te amo” é céu... é abismo... é inferno. E como todo garoto que encontra uma máquina poderosa, resolveu usá-la do jeito relativamente errado.

 

Passou então a interagir com o mundo pelo avesso. Quando lhe desejavam saúde, ele devolvia doenças, leves.

 

Quando pediam conselhos, oferecia verdades. Quando alguém lhe dizia “fique bem”, ele murmurava “pode ser que piore”.

 

Não por crueldade. Queria experimentar. Não queria recursos, teses ou academicismos. Achava que os professores tinham muito conhecimento teórico (angariados nos grossos livros, (se) lidos no aconchego de seus confortáveis gabinetes), mas detinham pouca ou quase nenhuma experiência prática naquilo com que lidavam e ensinavam. Afinal, concordemos: a língua é coisa baita de abstrata.

 

Palavrares cedo compreendeu que o conhecimento importava mais enquanto testado e, quando experimentado, era sim possível segui-lo. Acreditava que o melhor seria contrariá-lo. Soube por um dos professores que isso se chamava conhecimento empírico. E-M-P-Í-R-I-C-O. A palavra até tinha beleza, mas carecia de alma.

 

João queria observar o momento exato em que o rosto alheio deixava de ser máscara e virava verdade. A linguagem, ele aprendera, é o último verniz antes do desespero. Bastava arranhar.

 

E funcionava.

 

As pessoas riam nervosas. Depois franziram a testa. Depois se irritavam. Depois se afastavam. João anotava tudo mentalmente, satisfeito, como um entomólogo social que espetava borboletas com frases.

 

E assim se propôs ao que chamou de “experimento antissocial”.

 

Com um discreto bloco de notas enfiado em um dos bolsos de sua surrada calça jeans, firmou-se no propósito linguístico, sem embargo das consequências que poderiam lhe acorrer por força do experimento. Afinal, como ser social, o uso da linguagem em desconformidade ao esperado poderia lhe trazer consequências. Não importava. Estava no estrito exercício de um pesquisador onírico, não oficial.

 

Atento às oportunidades, dirigiu-se certo dia à secretaria de uma escola, onde exercia, na condição de estagiário, a função de redator de ofícios e documentos em geral, sob a supervisão de um diretor. De bom humor, como sempre, recebeu os cumprimentos do colega imediato.

 

- Bom dia, Palavrares. Pronto para mais um dia de trabalho?

 

Ao que lhe respondeu, olhando no fundo dos simpáticos olhos.

 

- Bom dia para quem, seu ordinário? Pronto nunca. Nem eu, tampouco você, que trabalha porcamente, sem vocação, por um mísero salário que mal lhe paga as contas.

 

O assombro. O rosto assustado do colega não mentia a indignação de quem imaginava dizer: “que horror”. Nisso vislumbrou a face escarlate do parceiro, que, sem entender, lhe proferiu impropérios indignos de serem aqui descritos. João descreveu a cena em seu bloco de notas: “interlocutor incrédulo ante verdades que jamais lhe foram ditas”.

 

Ao trabalho. Sobre a mesa, a minuta de uma carta aos pais de um aluno da escola, a ser redigida em linguagem padrão, comunicando mal comportamento, com convite para uma reunião com a diretoria.

 

Palavrares escreveu:

“Senhores pais,

 

É com muita indignação que esta diretoria comunica a baixíssima qualidade de comportamento de seu filho, aluno devidamente matriculado nos quadros desta instituição, que não tem, por dever legal e contratual, a responsabilidade de alinhar o mau-caratismo que se desvia das propostas metodológicas utilizadas no mister da educação. Uma coisa é errar. Coisa outra é ser errado. Nesse quesito, foge-nos a capacidade técnica e instrumental de adequar o que não se adequa pelos meios lícitos e administrativos. A isso servem-nos a Polícia ou outros órgãos de correição. Professor professa e conduz. Aos pais cabe única e efetivamente ensinar a base mínima da ordem moral e do respeito, que sujeitam o indivíduo à condição de cidadão.

 

Com isso, convocamos Vossas Senhorias para uma reunião, a ser prontamente agendada com o diretor dessa nobre e tão desvalorizada instituição.

 

Fraternalmente,

 

A direção”.

 

A carta foi recebida para análise e eventual adequação. Em poucos instantes, João foi convocado pelo diretor.

 

- Que história é essa, João?

 

- História? Desde quando escrevo histórias? Redigi a solicitada carta de convocação em estilo direto e sóbrio.

 

- Bem sei. Desse jeito pai nenhum mantém o filho aqui. Assim, leva-nos à derrocada. Tem de utilizar a linguagem polida. Há formas corretas de se comunicar.

 

- Corretas? Onde estão os erros?

 

Foi o suficiente para ser demitido. Não sem antes anotar em seu bloco de notas: “verdades machucam e matam quem as profere”.

 

Juntou suas coisas e foi embora, ciente, de antemão, que os atos de suas propostas não ficariam isentos das consequências.

 

No trajeto de volta pra casa, com o calor típico de um verão na era de crises climáticas, parou em um pequeno bar. Chamou pelo garçom, que já o tinha visto adentrar ao estabelecimento.

 

- Boa tarde, já fez o seu pedido?

 

- Se tivesse feito não o teria chamado - retrucou-lhe o jovem “cientista” – traga-me um suco de laranja, por favor.

 

- Adoçado?

 

- Não. Traga bem amargo, repleto de sal e limão – a ironia se perfez com um sorriso.

 

Sentou-se à mesa, abriu as anotações.

 

“Já nos primeiros dias de teste linguístico-experimental, destituí-me da face positiva para interagir da forma mais franca possível com os meus iguais. Fiel ao temperamento de minhas opiniões, pude constatar que a verdade, quando proferida, é mais doída que ferida mal curada”.

 

Na mesa ao lado, dois varões de meia-idade, em tom professoral, discutiam, zombavam questões atinentes a erros de expressão na conversa entre funcionários daquele local. Via-se, de perto, que as pessoas a que se referiam eram simples, conversavam entre si e, naquele contexto, não se lhes exigia qualquer conhecimento oficial de ordem gramatical. Não é raro que essa turba de sabichões, à falta de conteúdo ou preocupações com matérias realmente relevantes, se deixe levar pela mania de comentar a conduta alheia com a exposição de insignificâncias que nomeiam erros.

 

- Olha lá. Falam tudo errado – dizia um ao outro.

 

Viu nisso um retrato fiel do ego em exercício. Não se conteve, pediu permissão para se intrometer.

 

- Bem vejo, meus caros, que vocês dominam a língua com primor. Peço licença pela intromissão. Ouvi Vossa conversa. Achei um descalabro. Mas as pessoas conversam, interagem da melhor forma que lhes convém. Vocês são juízes da linguagem?

 

- Não – respondeu o mais alinhado – somos advogados, operadores da norma, e a língua é nosso meio. Eles falam errado. No direito, escrito ou falado, isso é inaceitável.

 

- Isso é problema da ignorância de vocês, que só sabem de direito, se é que sabem. O mundo é muito mais amplo.

 

Não deu tempo de retrucarem. Pagaram a conta e foram embora. João também não queria se alongar. A ideia era apenas cutucar.

 

E cutucou. A ponto de ser reclamado pela gerência do bar após a comunicação do fato pelos “doutorezinhos”.

 

Na sala de aula

 

A aula de gramática acontecia numa sala abafada. O professor falava com a segurança de quem conhece as regras do jogo. Concordância, regência, desvios. Tudo funcional.

 

— A forma correta é esta – dizia – o restante são usos inadequados ao contexto formal.

 

João sentiu o bolso pesar. Os fósforos estavam ali.

 

— Professor – disse - posso fazer um aparte?

 

O professor assentiu.

 

— Quando o senhor fala em “forma correta”, refere-se à eficácia comunicativa ou à autoridade de quem escreve os manuais?

 

Alguns alunos se animaram. Outros se encolheram.

 

— Refiro-me ao que é aceito pela norma – respondeu o professor. – Sem ela, certas portas não se abrem.

 

— Mas a comunicação ocorre fora da norma – insistiu João. - A norma não garante entendimento. Seleciona quem pode falar sem ser interrompido.

 

O silêncio veio fácil.

 

— “Nós vai” comunica – disse João. – O erro está menos na língua do que no julgamento. A gramática normativa não descreve: administra.

 

O professor apoiou os cotovelos na mesa.

 

— Talvez – disse. – Mas ao afirmar isso, você também administra. Decide o que merece defesa. Troca-se o critério, mantém-se a hierarquia.

 

João hesitou.

 

— Eu exponho.

 

— Expor já é poder - respondeu o professor. – Principalmente quando se escolhe o palco.

 

A aula seguiu. João não falou mais. Não anotou nada.

 

Nos dias seguintes, as conversas cessaram quando ele se aproximava. Tornara-se previsível: sempre haveria um reparo, uma explicação, um desmonte. Percebeu então que seu experimento não o afastara da norma. Apenas o colocara noutro lugar de comando. A linguagem continuava sendo régua. Mudava só a mão.

 

A solidão veio sem espanto. João dizia não se importar. Talvez não fosse mentira. Talvez fosse treino.

 

Com isso, deu por encerrado o experimento. Não houve respostas. Não houve anúncio. Dele não tive mais notícias. As anotações não foram divulgadas a ninguém, exceto a mim, que conto esta estória de perto. Enquanto João saía nos intervalos, deixava o bloco sobre a carteira. Li. Não por acaso. Nem por permissão.

 

Se soubesse, ele não deixaria. Diria que toda formalização trai a experiência. Discordo. A verdade também gosta de palco. Tomei a liberdade de registrá-la. Quem sabe não me renda uma tese.

 

Em verdade, João não falava contra a norma. Falava como quem, querendo contrariar, mandava, acreditando estar no jogo.

 

Ainda assim, penso que desistira fácil, como quem, acreditando agir distintamente para provar seus legítimos fins, sucumbe ao sistema quando atingido pelas verdades postas e as aceita por crer não ser suficientemente forte.

 

Afinal, o homem é um ser com nobres fins, até que lhe digam o contrário.

 

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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