Por Pedro César Alves
A Inteligência Artificial (IA) chegou ao universo da escrita – e já faz um bom tempo. Este ‘ato de chegou’ trouxe (e está trazendo) alguns pontos a serem pensados, ou seja: a IA é cúmplice ou vilã da escrita?
E pensando em ‘cúmplice ou vilã’, há uma questão crucial para os leitores: o texto gerado com auxílio de máquinas é um avanço ou um empobrecimento? Como referência deste assunto, usarei o gênero textual crônica (que se caracteriza por retratar o cotidiano de forma leve, subjetiva e reflexiva, mesclando elementos jornalísticos e literários, tendo o seu foco a observação crítica de fatos corriqueiros, com linguagem simples, concisa e muitas vezes com o uso de humor ou ironia).
Após um certo tempo pensando (e pesquisando), chego à resposta de que não é tão simples assim, pois reside no grau de envolvimento da tecnologia, ou seja: determinar qual a participação da IA (tecnologia) no processo. Para tal análise, separei dois pontos: risco à autenticidade (negativo) e aumento do potencial humano (positivo).
Pensando pelo lado ‘risco à autenticidade’: quando a IA for a autora primária da crônica, o leitor corre sérios riscos. E por quê? Porque a crônica vive do ‘olhar único’ do escritor sobre o dia a dia (sua ironia, sua experiência humana, seu tom irrefutavelmente autoral). Quando o texto é criado por algoritmo, este está baseado em padrões e dados preexistentes (ou seja, sacrifica a originalidade e a alma que conferem valor literário ao gênero).
Logo, o leitor mais atento pode sentir uma quebra de confiança e de senso de autoria – a obra não reflete uma ‘extensão do pensamento e sentimento’ humano (por outras vias... depender excessivamente da máquina pode, a longo prazo, levar o próprio escritor à preguiça cognitiva, enfraquecendo sua capacidade de pensar criticamente e de construir argumentos profundos).
Pelo lado do ‘aumento do potencial humano’, o risco é menor, por assim dizer, desde que o autor assuma a posição de ‘criador’, ou seja, forneça ideias, apontamentos e a essência autoral – neste caso a IA se transforma em uma poderosa cúmplice (a tecnologia está para auxiliar – e não fazer tudo).
Quando o autor usa a IA em ‘colaboração’, há a potencialização do fluxo criativo (a IA auxilia indicando, desbloqueando e sugerindo ângulos inusitados para o tema - brainstorming, ou ‘tempestade de ideias’). Positivamente, ainda, a IA atua como um revisor implacável e ultrarrápido, corrigindo gramática, pontuação, coesão e até sugerindo aprimoramento de estilo (como deixar um parágrafo mais vívido ou irônico), elevando a qualidade final do texto a um nível profissional.
E, soma-se também que, ao delegar tarefas burocráticas e previsíveis (revisão, pesquisa de fatos contextuais e formatação) à IA, o escritor tem mais tempo para se concentrar no essencial: opinião autoral, sensibilidade humana – que diferenciam uma crônica de um simples relato.
Depois de termos em mente estes dois pontos (positivo e negativo), uma crônica só atenderá as expectativas do leitor se mantiver o elemento humano como sua coluna principal. Assim, a IA (tecnologia) não deve substituir a inteligência humana, mas sim servir como ferramenta de apoio estratégico (ser usada para polimento e não para criação da alma).
Para o escritor consciente – aquele que pensa no leitor de forma carinhosa, a chave é preservar o imprevisível da mente humana (personalidade, profundidade e originalidade) e delegar o previsível à máquina (revisão, regras, formatação).
Pedro César Alves é professor, Me. Teologia, jornalista e escritor (Araçatuba/SP)
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