Por Cassio Betine
Já ouviu falar em “super-humanos”? Só para contextualizar, desde que o homem é homem, tentamos aprimorar nossas capacidades. Veja por exemplo os óculos, que nos faz enxergar melhor, aparelhos auditivos, as próteses, aparelhos ortodônticos, vitaminas para nos dar energia etc, etc. Mas já parou para perguntar onde isso pode parar?
Pois é, nesse exato momento há, sem dúvida alguma, centenas de milhares de pesquisadores trabalhando para alterar os limites do corpo e da mente, e as coisas que eles desenvolvem são, ao mesmo tempo, incríveis e também assustadoras.
As próteses não são mais apenas pedaços de madeira ou metal mecânicos, são dispositivos inteligentes, órgãos artificiais, edição genética com CRISPR e interfaces cérebro-máquina. E mais, esses recursos foram sendo deixados de ser apenas soluções médicas e passaram a ser vistos como potenciais ferramentas de aprimoramento.
Só como exemplo, empresas como a Neuralink, de Elon Musk, trabalham em implantes cerebrais capazes de conectar o cérebro diretamente a computadores. A Kernel, nos Estados Unidos, desenvolve capacetes de neuroimagem para mapear e estimular funções cognitivas. Já a DARPA, agência de pesquisa avançada do Departamento de Defesa dos EUA, investe em tecnologias que poderiam aumentar a resistência física e mental de soldados.
Os benefícios resultantes dessas tecnologias são tentadores: imagina só poder restaurar movimentos em pessoas com paralisia, ampliar memória e atenção (há inclusive um filme bem top que aborda isso – Limitless, 2011, estrelado por Bradley Cooper), acelerar a recuperação de lesões, prevenir doenças neurodegenerativas e por aí a fora... Mas o que assusta mesmo é perceber que essas mesmas técnicas podem ser usadas para ir além da cura, criando indivíduos com desempenho acima do comum. E é aqui que a ideia de “super-humanos” ganha contornos reais.
Mas e os desdobramentos disso? Por exemplo: se apenas uma elite tiver acesso a essas tecnologias (o que é bem possível que aconteça), o mundo poderia se dividir entre “aprimorados” e “não aprimorados” – parece filme, não é mesmo? Há também o risco de usos militares ou corporativos, que podem transformar pessoas em peças de um jogo de poder.
Tem também a possibilidade do futuro remoto. Imagine uma sociedade em que chips cerebrais sejam tão comuns quanto smartphones e poderíamos enviar mensagem apenas pelo pensamento, em que atletas disputem campeonatos com próteses que ampliam significativamente sua força, estudantes usem estimulação cerebral para aprender em mega velocidade. Talvez vejamos uma fusão entre biologia e tecnologia tão profunda que a própria definição de humano precise ser revista.
Bom, no fim das contas, essas pesquisas sobre “super-humanos” é um espelho das nossas ambições e medos. Queremos vencer doenças, ampliar capacidades, desafiar limites. Mas também, de certa forma, tememos perder o que nos torna humanos. O que parece certo mesmo é que, mais cedo ou mais tarde, teremos que conviver com pessoas que carregam no corpo e na mente tecnologias que as tornam diferentes. E a grande questão será: estaremos prontos para aceitar que o futuro da humanidade pode ser, literalmente, mais do que humano?
Cassio Betine: Pós-graduado em Tecnologias da Aprendizagem, Bacharel em Artes e Desenho Industrial. Coordenador e Mentor de Negócios e Eventos. Autor de livros, artigos e produtor de conteúdos diários sobre Tecnologia, Inovação e Comportamento. É empreendedor em outros negócios e fundador da F7Digitall.com – Tecnologia & Comunicação
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