Por Antônio Reis
Luiz Carlos Gomes Rocha da Silva não pôde comemorar o aniversário de 63 anos, completados no hospital três dias depois de um enfarto. Os amigos formaram um grupo de WhatsApp para dar suporte à internação, já que ele não tinha parentes próximos em Araçatuba (os três irmãos moram nos Estados Unidos). Durante 75 dias, o grupo fez o que pôde para sua recuperação, mas não foi possível driblar o inevitável. Complicações decorrentes do enfarto o levaram na manhã de 29 de janeiro e o corpo foi sepultado no dia seguinte.
Conheci o Luiz em 1975, quando fui estudar no Genésio de Assis. Nesse mesmo tempo, nos víamos no campinho do XV, esquina da Humberto Bergamaschi com a Imaculado Coração de Maria, onde as peladas corriam soltas, embora ele nunca tenha sido boleiro. Ele morava na Yampei Kikuchi e eu, na Humberto. Também nos encontrávamos nas sessões do Cine Paraíso. Dois anos depois, tornei-me jornaleiro e ele, meu freguês. Colecionava a revista POP, que abordava assuntos de interesse dos jovens. De vez em sempre passava pela revistaria para longos bate-papos, já que o local se transformara em ponto de encontro da galera que entrava na adolescência.
Vieram os anos 1980, abertura política, novidades nos mercados editorial e musical, o ar que respirávamos se tornou menos denso, com nossos olhos e ouvidos mais apurados. E o Lu todo riponga (cabelos compridos, bolsa de lona a tiracolo, sandalhão, jeans surrados) adquiriu uma flauta doce. Depois, uma transversal. Virou o Luizinho da flauta. Por esse tempo, meteu o pé na estrada e foi estudar História na Unesp, em Assis (SP). Tornou-se o Luizinho de Assis, tamanha a empolgação com o curso e as agitações culturais na cidade que o adotara. No magistério, novo apelido: Luiz professor de História. Já era um fotógrafo talentoso quando ingressou na Polícia Civil e passou a assinar Luiz Rocha. Acho que a principal característica dele era ser muito intenso nas suas escolhas.
Frequentamos quase todos os bares alternativos que surgiram em Araçatuba, sem necessidade de combinado prévio. Conversamos sobre quase tudo: música, política, mulher, contracultura, literatura, cinema. Lembro-me do dia em que fiquei puto porque ele não quis me emprestar o livro "Rumo à Estação Finlândia", um best seller no início dos anos 1980. Minha irritação passageira foi injusta, pois nunca mais voltei a me interessar pela obra, apesar das várias chances que tive.
Tivemos oportunidade, mas não chegamos a ser amigos íntimos. Em compensação, acredito em amizades fortes alicerçadas em afinidade. Tínhamos o mesmo gosto musical (a primeira vez que escutei Ravi Shankar ele estava junto), praticamente a mesma preferência política, o interesse por cultura em geral, cerveja em botecos com os mais chegados. Tínhamos muitos amigos em comum. Ah, também estudei História, mas não concluí o curso. Ultimamente, o que nos unia era a fotografia.
Nossos últimos encontros foram nos shows do Sesc/Birigui, quando me vinha à mente muitas cenas do nosso passado. Tenho a impressão de que acontecia o mesmo com ele. Num happy hour coalhado de velhos conhecidos, pouco antes da pandemia, ele disse aos presentes que eu era seu mais antigo amigo naquele ambiente. Não fui visitá-lo no hospital para não testemunhar seu sofrimento. Tinha esperança de que se recuperaria e voltaria para casa, a mesma de 1975, mas fui traído pela expectativa. Por sua trajetória, cumpriu a sentença de Guimarães Rosa: "A gente morre para provar que viveu".
Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
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