Opinião

Fundo falso

"Tirocínio, chamam. O faro treinado pra farejar incoerência"
Da Redação
15/12/2025 às 18h44
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Thiago Torres Canossa

 

A cidade estava com cara de vitrine.

 

Luzes penduradas em postes, guirlandas improvisadas nos comércios, gente atravessando a via com sacolas e sorrisos, aquele sorriso de fim de ano que não é alegria: é faxina emocional. Como se dezembro servisse pra varrer as culpas pra debaixo do tapete e brindar por cima.

 

Eu via tudo de trás, pelo vidro da viatura. Um vidro que não é janela, é aquário. E eu, peixe.

 

A algema não doía; o que doía era o som. O clac do lacre é um barulho que não pede opinião. Ele declara. Ele assina no teu corpo. E ainda faz questão de soar alto, como se dissesse ao mundo: “está feito”.

 

Quando a sirene subiu, eu pensei que era exagero. Não por bravata, por hábito. Sirene é pra ladrão de verdade, eu dizia por dentro. Sirene é pra quem não tem sobrenome apresentável, pra quem não conhece ninguém, pra quem não entra pela porta da frente. E eu sempre entrei. Eu sempre fui “o Flávio, da Prefeitura”.

 

Aí alguém falou lá fora, como quem comenta o tempo:

 

— Olha lá. É o Flávio, da Prefeitura.

 

Nesse instante, eu entendi que o problema não era a polícia. Era a plateia.

 

Horas antes, eu era só um homem dirigindo uma BMW por uma via movimentada, com o rádio alto, o ar-condicionado fazendo seu ofício de apagar o mundo.

 

Eu gostava daquele volante. Não pelo couro, pela marca, por nada disso, eu gostava porque, ali, eu parecia no controle. E o controle, num país como o nosso, é uma fantasia cara.

 

A ordem veio seca, no meio do fluxo de carros: averiguação.

 

Eu ainda pensei em sorrir. Sorriso funciona como crachá. Funciona mais do que documento. Funciona mais do que razão. Um sorriso bem treinado desarma o Estado. Pelo menos, era o que eu acreditava.

 

Mas o policial nem olhou meu rosto como quem avalia gente. Olhou como quem lê um número.

 

— Desce do veículo.

 

Eu desci. O mundo, quando você está bêbado, não balança. Ele te balança. Ele te usa como prova do próprio desequilíbrio. E o bafômetro entrou como uma sentença que não discute.

 

O número apareceu e eu nem consegui decorar. O tipo de número que te transforma em estatística.

 

— Altíssimo grau — o tenente disse, como se eu fosse um prédio.

 

Aí veio a parte em que eu esperei o país fazer o que ele sempre faz por quem parece “do lado de cá”: olhar o relógio, o carro, a camisa, e dar aquela desistida educada que chamam de bom senso. Um “vai pra casa, doutor”. Um “não estraga o fim de ano”.

 

Só que choveu.

 

A chuva é um detalhe besta, até você perceber que ela muda o humor do mundo. Eles ficaram mais metódicos, mais silenciosos. Como se a água limpasse a preguiça e deixasse só o trabalho. E aí o tenente olhou meu endereço, olhou minha ocupação, olhou a BMW, e o olhar dele foi uma soma que não fechou.

 

Tirocínio, chamam. O faro treinado pra farejar incoerência.

 

— Abre aí.

 

Eu abri.

 

Eu sabia do fundo falso do porta-luvas como se soubesse de um dente estragado: você não pensa nele o dia todo, mas evita mastigar daquele lado.

 

Quando a mão enluvada puxou o plástico e o cheiro de mato subiu, eu tive uma lucidez rápida, cruel, dessas que só o medo dá: não é que eu estava sendo preso. Eu estava sendo lido.

 

E o pior: eu era um texto mal escrito.

 

Chamaram o tenente de novo, chamaram mais gente, olharam pra mim com aquela fome de narrativa. A cidade adora uma história em que o “bem vestido” cai. É um tipo de justiça estética: o prazer de ver a gravata virar corda.

 

— Conduzam-no ao delegado plantonista.

 

Algemaram meus pés e mãos. Lacraram. E aí eu virei peça. Virei volume. Virei ocorrência. Virei “conduzido”.

 

O plantão funcionava como um organismo que não dorme: escrivães, investigadores, carcereiros, delegado. Uma máquina de registrar desgraça com pontuação correta. A viatura parou diante do portão. Luzes, sirene curta. O carcereiro abriu como quem abre a boca de um monstro habituado.

 

Eu entrei.

 

Na sala do delegado, o ar cheirava a café velho e papel. O delegado tinha aquela expressão de quem já viu de tudo e, por isso, acha que nada merece espanto, até que alguma coisa o diverte.

 

— Seu nome completo.

 

Eu disse. Ele anotou. E antes que eu me lembrasse de ser alguém, ele me lembrou que eu era suspeito.

 

Quanto à embriaguez, não havia conversa: prova feita, fato claro, auto se formando. O resto era o porta-luvas.

 

— A quem pertence o carro e as substâncias?

 

Eu pedi uma ligação.

 

Era direito meu. Eu não tinha muito mais além disso naquela madrugada: direitos e vergonha. Liguei. O advogado atendeu como se estivesse acordado há semanas.

 

Ele veio.

 

Era desses criminalistas conhecidos na cidade. Um sujeito que circula. Cumprimenta o carcereiro pelo apelido, chama o delegado pelo primeiro nome, e sai, deixando no ar a sensação de que todo mundo ali lhe deve um favor antigo. Eu já tinha visto ele defendendo gente pior do que eu, e gente melhor também, porque a moral é um luxo instável.

 

Ele pediu conversa reservada. Orientou com uma calma de padre:

 

— Você vai ficar em silêncio. Vai exercer o direito. Nada de explicação criativa. Quem explica se enterra.

 

Eu assenti. Não porque eu fosse obediente, mas porque eu era covarde.

 

O delegado retomou o interrogatório.

 

— Fale sobre as porções encontradas.

 

Eu respondi como quem recita uma oração:

 

— Manifesto-me de modo a exercer meu direito constitucional de permanecer em silêncio.

 

O delegado, que já tinha decidido o roteiro, ainda tentou:

 

— O senhor sabe que pode ser preso por embriaguez ao volante e… em se constatando ilícitas as substâncias… tráfico de drogas.

 

Eu olhei pra mesa, pro brasão na parede, pro relógio. O tempo, ali, não passava; ele apodrecia.

 

O perito de constatação chegou com o laudo preliminar algumas horas depois. Trinta papelotes. Erva esverdeada. Teste químico. E a palavra que ninguém ali tinha ouvido antes:

 

“Braqueara”.

 

O delegado leu, ergueu a sobrancelha e riu. Riu como quem encontra uma piada pronta no meio do tédio.

 

— Mas por que diabos você carrega porções de braqueara?

 

Meu advogado apertou minha perna, como se pisasse num freio.

 

Eu repeti:

 

— Estou no pleno exercício do meu direito constitucional ao silêncio.

 

O riso do delegado se espalhou pela sala e foi contaminando a delegacia inteira, como se a palavra “braqueara” tivesse virado apelido instantâneo.

 

Não era droga. Não estava na portaria do Ministério da Saúde. Não era crime. Pelo menos, não daquele tipo. Mas eu ainda estava preso ali por outro motivo: eu tinha sido ridículo. E ridículo é imperdoável.

 

Formalizaram o flagrante da embriaguez. Crime afiançável. Termo, fiança, alvará. Eu paguei como quem compra oxigênio. Saí antes do amanhecer.

 

Do lado de fora, a cidade continuava com suas luzes e seus brindes, indiferente e pronta para me devorar com a mesma alegria com que devora um panetone seco. Eu voltei pra casa com a sensação de que não tinha sido absolvido: tinha sido devolvido.

 

Dias depois, a máquina voltou a me procurar. Só que dessa vez não era o delegado; era o Ministério Público.

 

Eu soube por terceiros, sempre por terceiros, porque a cidade não fala contigo, fala sobre você, que o promotor tinha se incomodado com a braqueara. Não pela planta, mas pelo que ela insinuava.

 

Intimou meu advogado.

 

Eu não estive na oitiva, mas ouvi a história como se fosse minha, porque, no fundo, era meu destino sendo reescrito sem minha presença.

 

O advogado disse ao promotor:

 

— Doutor, braqueara é vendida como amuleto. Tem gente que acredita que atrai bicho incomum. E, em último caso, com dolo… pode ser usada pra ceifar plantações alheias, pra chamar pragas, pra prejudicar lavra. Mas não é o caso do Flávio. Ele é uma boa pessoa. Só tem hábitos estranhos. Difíceis de interpretar.

 

Boa pessoa.

 

Quando me contaram isso, eu senti o mesmo tipo de humilhação de quem recebe tapinha na cabeça. Boa pessoa é um atestado de inutilidade moral: você é inofensivo, portanto pode ser sacrificado.

 

O promotor o liberou e ficou com a dúvida. E a dúvida, naquela engrenagem, não é motivo pra parar: é motivo pra avançar.

 

Ele denunciou.

 

Não pela substância em si, isso seria feio demais, mas “pro societate”, como se a sociedade fosse uma criança assustada que precisa de cobertor penal. Qualificou o fato como dano. Suspeita de que eu estaria instalando pragas em plantações alheias, mormente, e isso não estava nos autos, mas estava na saliva, contra gente grande da cidade.

 

Sem prova concreta. Com a coragem de quem confunde suspeita com missão.

 

O juiz recebeu a denúncia.

 

E aí a história ganhou uma curvatura que eu só fui entender depois: o processo não nasceu de uma convicção. Nasceu de um incômodo.

 

O juiz, homem respeitado, tinha terras. Todos sabiam. Mas ninguém sabia exatamente o que ele produzia nelas. Terra, no Brasil, é segredo bem cercado.

 

O prefeito era amigo do juiz. E, num desses dias em que a amizade é uma visita com intenções, ele se convidou, sob pretextos outros, a conhecer uma das fazendas.

 

O que viu, ele me contou mais tarde num tom que fingia desprezo e escondia medo: mangas, laranjas, cana-de-açúcar. Tudo bonito. Tudo verde. Tudo com cara de foto de campanha. Mas, conforme andavam, folhas de braqueara surgiam aqui e ali, em lugares que pareciam estratégicos, como se alguém tivesse espalhado migalhas.

 

Quanto mais avançavam, mais braqueara. Como se a própria planta fosse um caminho.

 

O juiz interrompeu o passeio com uma secura agressiva:

 

— Até aqui está bom. Vistes tudo. Vamos voltar. Dia desses você traz sua família pra almoçar conosco.

 

O prefeito achou estranho. Lá na frente havia algo mais. E o estranho, em política, é o perfume da caça.

 

Voltou sem almoçar.

 

Foi ao delegado.

 

O delegado, que tinha rido do meu caso na madrugada do plantão, dessa vez não riu. Lavrou representação ao próprio juiz, pedindo autorização judicial para busca na fazenda.

 

O juiz negou. Negou como quem fecha uma porta e ainda pede desculpas por ter porta.

 

Sem opção, o delegado recorreu ao Tribunal de Justiça.

 

E o Tribunal deferiu.

 

No dia e hora certa, equipe em diligência, preceitos da decisão superior, deslocamento, cumprimento. Tudo com a solenidade de quem quer provar que o mundo é neutro, quando não é.

 

Eles caminharam devagar. A braqueara, dizem, ia aumentando conforme os passos. Os indícios conduziam como um cão invisível.

 

E lá adiante, escondida, travestida com pés de pinha, encontraram uma plantação imensa.

 

Chamaram o perito.

 

O perito constatou: Cannabis sativa . Maconha. Entorpecente. Não amuleto. Não mito. Não metáfora. Uma lavoura inteira de crime real, irrigado e bem cuidado.

 

O juiz foi conduzido.

 

Interrogado.

 

Preso.

 

Expropriado.

 

E eu, senti justiça, sem enjoo. Porque a verdade, quando explode, não limpa: ela espalha sujeira. Ainda assim, convenhamos, o caso não me era novidade.

 

A cidade, que tinha me assistido pelo vidro da viatura como quem assiste a um desfile, agora assistia ao juiz como quem assiste a um incêndio na casa do vizinho, com aquela curiosidade moral que não salva ninguém, mas aquece.

 

No fim, meu processo foi minguando de força. O promotor ficou grande demais no próprio enredo pra continuar insistindo em mim. E, no entanto, meu nome tinha sido marcado do mesmo jeito. “Flávio da Prefeitura”, “Flávio da braqueara”.

 

Ninguém esquece um apelido bom.

 

No Brasil, você não precisa ser culpado. Você precisa ser útil.

 

Nas eleições seguintes, eu me candidatei.

 

Não porque eu tivesse vocação. Eu tinha fome de me devolver ao mundo com outra moldura. Eu queria uma nova etiqueta pro mesmo frasco. Queria sair da condição de conduzido e virar condutor, mesmo que fosse só no sentido simbólico de conduzir discurso.

 

Fui eleito vereador.

 

A cidade ama uma volta por cima, principalmente quando pode fingir que participou dela. O povo quer acreditar que há moral no roteiro, que a queda educa e a ascensão purifica. Quer acreditar que existe justiça, mesmo que seja de feira.

 

Na posse, gritaram meu apelido como se fosse slogan. Como se fosse bênção. Como se fosse piada que vira glória:

 

— Braqueara! Braqueara!

 

E eu sorri.

 

Sorri com a mesma vergonha de antes, só que agora maquiada. Aplauso é uma forma de perdão que não pergunta nada. Aplauso é um alvará social.

 

Ali, de pé, ouvindo meu nome ser mastigado em coro, eu pensei no som do lacre da algema, naquela madrugada. Pensei na chuva. Pensei no riso do delegado. Pensei na palavra que ninguém conhecia e que, por algum capricho do acaso ou do poder, virou caminho. Missão cumprida.

 

E constatei, com uma lucidez amarga, que o bicho incomum nunca foi a braqueara que atraía, mas a estratégia invertida.

 

O bicho incomum era a multidão.

 

E eu, agora, tinha aprendido a alimentá-la.

 

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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