Opinião

Fotografia e democracia

"Algumas fontes estimam em 100 milhões de imagens publicadas diariamente no Instagram"
Da Redação
13/01/2026 às 15h28
Foto: Antônio Reis Foto: Antônio Reis

Por Antônio Reis

 

Entre as datas comemorativas do mês, o 8 de janeiro é Dia Nacional da Fotografia e o Dia do Fotógrafo. Teria sido neste dia, no ano de 1840, a chegada da primeira câmera fotográfica ao Brasil. Bem sei que um texto perde impacto quando se refere com atraso a uma data comemorativa, mas fotografia é lembrança, recordação, documentação. 

 

Com celulares baratos que tiram fotos tão boas quanto as câmeras fotográficas mais caras, nosso cotidiano foi inundado por imagens. Algumas fontes estimam em 100 milhões de imagens publicadas diariamente no Instagram. Nem todas as postagens são fotos e, logicamente, nem todos que as produzem são fotógrafos. Eis, então, para fins croniqueiros, a importância de se definir o que é fotógrafo. 

 

Defino como fotógrafo quem domina as teorias básicas da arte e sabe aplicá-las na prática. Esses conhecimentos possibilitam que a pessoa retrate a realidade ou a apresente conforme sua vivência e visão de mundo. Pode-se usar um celular ou uma câmera. O fotógrafo é também aquele que vive da fotografia, embora há quem se dedique a ela por diletantismo. 

 

Fotografia é comumente associada ao belo: modelos de corpos esculturais, casamentos, casal grávido, paisagens bucólicas, salto de uma ginasta, passo de balé, pôr do sol, voo de pássaro, animais domésticos ou selvagens, jardins floridos, praias desertas, lua cheia. O mesmo conceito, porém com lógica invertida, possibilita ao fotojornalista lindas imagens de fatos horrorosos, como o garoto sírio morto numa praia, uma menina vietnamita se derretendo pelo efeito de napalm, cidades inteiras destruídas por bombardeios, ataques terroristas, violência contra povos originários, corpos pretos estirados pelo chão da favela.

 

A lógica invertida se aplica quando o objeto/assunto retratado é horrendo, mas as fotos são plasticamente bonitas graças ao talento do fotógrafo. Por infeliz coincidência, o 8 de janeiro de 2023 rendeu grandes registros aos fotojornalistas presentes em Brasília naquele dia. Golpistas teleguiados pelo candidato derrotado à Presidência da República proporcionaram atos de selvageria jamais vista no País, tudo registrado pelas lentes de profissionais da informação. 

 

É de cortar o coração ver um relógio do século 17 ser espatifado contra o chão e obra de Di Cavalcanti destruída a golpes de facão, além de outros objetos de arte danificados pelos ataques raivosos. O veneno patriótico foi além. Uma fotojornalista que registrou belas imagens de tais horrores, exatamente no Dia da Fotografia, foi ameaçada e teve de enfrentar uma onda difamatória por parte dos golpistas. 

 

A história é pragmática ao ressaltar a importância da memória social: "Tragédias de iniciativa humana devem ser lembradas para que não se repitam". A contribuição dos fotógrafos, e também de cinegrafistas, foi decisiva para documentar o fatídico 8 de janeiro de 2023 para que não aconteça novamente. Para chancelar o Dia da Fotografia e do Fotógrafo, se fez Justiça. Fotografia rima, mas não combina com anistia. Fotografia e democracia, sim, é uma rima poética.

 

(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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