Por Antônio Reis
Da comilança do Natal e Ano Novo, pouca coisa me apetece. Passaria de um ano ao outro sem panetone, chocotone, peru, chester, bacalhau, salpicão, rabanada, frutas cristalizadas. Com o passar dos anos, aprendi a ser minimalista, inclusive na alimentação. No verão, me atraem muito as frutas tropicais, uma em especial, por me remeter a um tempo em que a vida tinha o frescor de orvalho.
Fim de ano para mim tem sabor de manga. Não as importadas dos Estados Unidos, como a palmer, haden e a tommy atkins, cujo nome me lembra personagem de Dostoievski ou fuzil ucraniano. Falo da bourbon, espada, coquinho, coração de boi. Ah, e a manga rosa (a fruta, não aquela de fumar). Estas têm sabor de saudade. Da bourbon, verde por fora e madura por dentro, come-se até a casca.
As fiapentas nacionais, geralmente amadurecem no final do ano, dependendo da variedade, até março. As importadas são encontradas quase o ano inteiro. E por ter menos fiapo, são consumidas como sobremesa e bastantes usadas para doces, compotas, vitaminas, drinks ou saladas. A ausência ou escassez de fiapo não me ganha. “Fiapo de manga” deveria ser um verbo conjugado no pretérito-mais- que-perfeito.
De família roceira e de pouca instrução, fui ensinado a nunca chupar manga e beber leite no mesmo dia. Manga verde com sal, goumert da molecada do bairro, nem pensar. Na adolescência, quando as rédeas são rompidas, experimentei, a título de curiosidade e de subversão, vitamina da fruta com leite, aveia, açúcar e gelo.
Dono das próprias narinas há bom tempo, dei um passo além ao provar manga verde com sal. Não me decepcionei, mas por ser hipertenso não repeti a experiência. Trabalhei com um jornalista que fazia aperitivo da fruta verde com sal e limão para acompanhar cerveja e uma cachacinha. Não tive coragem, ou melhor, achava um atrevimento desnecessário.
Além do sabor, o aroma de manga madura me traz lembranças do ontem. Sou capaz de senti-lo ao longe, esteja a fruta no pé, na feira ou no mercado. Tivesse eu a competência de Gabriel García Márquez, autor de "Cheiro de goiaba", deitaria no papel novela ou romance intitulado "Cheiro de manga".
Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
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