Por Antonio Luceni
Anos atrás, fui um dos ouvintes do poeta e escritor Bartolomeu Campos de Queirós (1944 – 2012), numa palestra ministrada por ele na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, câmpus Três Lagoas. Em uma de suas provocações, ele perguntou: “A quem é direcionado o pôr do sol”?, ao que ele mesmo respondeu: “Para todos, não é mesmo? Cada um de nós, seja quem for, percebe esse fenômeno da natureza a seu modo. Também assim acontece com a obra de arte”. Gosto de pensar que esta verdade pode muito bem ser aplicada a outras esferas da vida, nas mais diversas ocasiões, para os mais diferentes públicos e temas.
Fiquei pensando nisso, a partir dessas efemérides todas que invadem a nossa vida em fim e começo de anos. Se a vida pragmática do brasileiro está entre antes do Natal e depois do Carnaval, acho que vale aqui algumas considerações.
Consideração 1: Não precisa ser brasileiro para gostar de Carnaval. Talvez um dos momentos (se não único) em que gringos do mundo todo estão com os olhares voltados para nosso país e, vários deles, com o corpo inteiro em avenidas e camarotes do Brasil, é no Carnaval. Uma festa variada que vai de burburinhos em locais fechados, bloquinhos de rua e trios elétricos a apoteóticos desfiles, como os que ocorrem no Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo.
Consideração 2: Mesmo quem diz não gostar de Carnaval, balança o pezinho ao ver uma escola de samba passar, ouvir um bom samba num bar etc. Sempre gostei de Carnaval, especialmente por conta dos carros alegóricos, fantasias e alegorias de escolas dos chamados Grupos Especiais. Aquele brilho todo, aquelas cores e formas, aquelas personagens imensas de carros que desafiam as proporções “normais”, a gravidade e as forças humanas...
Claro, o samba-enredo, a rigor, com provocações e questionamentos diversos, afrontando o status quo, reivindicando melhores condições de vida aos desprovidos socialmente ou homenageando alguma personagem preterida pela “história oficial”, colocando-a em seu devido lugar, ainda que por alguns momentos, em rede nacional de televisão.
Enquanto estive como diretor de cultura, participei de modo profundo do Carnaval de Araçatuba, inclusive montando carro alegórico. Muito me encantava visitar os barracões e ver homens, mulheres e crianças trabalhando na produção de fantasias, carros e adereços; depois, aquela alegria toda invadindo e contagiando a avenida dos araçás. Estar “dentro” de uma bateria de escola de samba é uma das coisas mais indescritíveis do mundo. Como partícipe, já pulei carnaval no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Salvador e em Recife/Olinda. Ai, o carnaval de Olinda...
Consideração 3: Há muitas formas de apreciar o Carnaval. Há quem não goste de muita “muvuca” e prefere pular o Carnaval em casa, reunindo familiares e amigos, enfeitando o ambiente para essa data festiva, jogar confete e serpentina e, quando cansar, pular no sofá e dormir.
Um outro modo de apreciar é lendo e/ou escrevendo sobre ele, como o faz o professor, pesquisador e escritor Ricardo Azevedo, com quem tive o privilégio de conviver, a partir de um curso de especialização na Unesp de Presidente Prudente. Além de robusta pesquisa sobre o tema, que virou livro pela EdUSP, 2013 (Abençoado & danado do samba – um estudo sobre o discurso popular), há outros livros nos quais aborda o tema, como em “Aula de carnaval e outros poemas” (Ática, 2009).
Dirigido ao público infantojuvenil (mas duvido que você não queira lê-lo), é composto por 24 poemas, como “Marchinha de carnaval” (Trém, trém, trém/ Meu relógio toca às seis/ Trém, trém, trém/ Todo dia, todo mês/ (...) Eu não aguento/ Hoje eu me vingo/ Esse relógio/ Toca até quando é domingo!); “Adivinhas carnavalescas” (O que é, o que é?/ É marcha e não tem soldado/ É tropa e vira folia/ Seu tambor é animado/ Sua ordem é alegria); “Festejar” (Se alguém não gosta de festa/ Nem consegue festejar/ É tão sério e preocupado/ Que não sabe mais brincar), entre outros. Os poemas são divertidos e festivos, como não poderia deixar de ser. O autor nos brinda, ainda, com lindas ilustrações de sua autoria.
Consideração 4: Uma vela para deus, outra para o “diabo”. Em algumas cidades, em tempos de falso moralismo, como os que estamos vivendo, há quem discrimine esta festa, principalmente, por questões religiosas; querem acabar com ela, mas, como há “votos” envolvidos, dão um jeitinho, mesmo que sucateando a festa, diminuindo as verbas, reduzindo os dias de festejo, executando as atividades ao modo “para inglês ver”. Têm o “rabo preso” com este ou aquele grupo religioso, mas também não querem perder os votos dos pagãos.
Sendo assim, acendem uma vela pra deus e outra pra o diabo! Quando novamente o mundo deixar de ser careta e as coisas voltarem à normalidade; quando o carnaval passar a ser uma festa para todos, em que crianças, jovens, adultos e idosos puderem festejar sem nenhum tipo de preconceito ou perseguição; quando, em todos os lugares, essa festa “virar voto”, com certeza, em todas as cidades do país seremos plumas, paetês, confetes, serpentina e purpurina.
Consideração final: Não deixe o samba morrer. O samba é a expressão da alegria, de humanidade, do colocar as máscaras para caírem outras. É na força do samba que grande parte da população brasileira, sobretudo a mais preterida e desprezada, se sente inteira, prestigiada, valorizada. Com suas roupas brilhantes e elegantes, ou com uma simples sunga ou biquíni, os brincantes resgatam história, entoam canções de todas as ordens, reivindicando direitos, prestigiando vultos, rememorando percursos, dançando, chorando, suando... Se o samba é uma das mais importantes expressões sociais (e não temos dúvida disso), ele nunca morrerá.
Antonio Luceni é doutorando em Artes pela UNESP, câmpus São Paulo, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras
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