Opinião

Antes de votar em 2026, lembre de 2025

"Seu trabalho como cidadão é simples: desconfiar da moldura"
Da Redação
09/01/2026 às 07h49
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Jonathas Magalhães

 

Quem trabalha com comunicação pública aprende cedo uma lição incômoda: não existe piso para incompetência. Sempre que você acha que viu o limite, aparece alguém disposto a cavar mais fundo.

 

E não falo só de despreparo técnico. Falo de cruzar linhas que não deveriam ser cruzadas. De firmar alianças que a própria sociedade já julgou e condenou. Sempre tem alguém disposto a provar que o fundo do poço tem porão, e que aceita descer mais um andar para ganhar uma eleição.

 

Mas esse texto não é sobre eles. É sobre você. Sobre como enxergar além do que te mostram.

 

A moldura muda tudo

 

Existe um conceito na comunicação chamado enquadramento. A ideia é simples: não existe realidade objetiva, existe o recorte que alguém faz dela. O mesmo fato pode virar vitória ou derrota, avanço ou fracasso. Depende de quem escolhe a moldura.

 

Parece abstrato, mas você já vive isso todo dia.

 

Pensa num casamento. O marido chega em casa e diz: "Trabalhei até tarde porque quero dar uma vida melhor pra nossa família." Moldura bonita. Mas a esposa pode olhar o mesmo fato e pensar: "Você nunca está presente, prioriza tudo menos a gente." Mesmo fato. Duas molduras. Duas realidades completamente diferentes.

 

Agora perceba: quem controla a moldura, controla a narrativa. No casamento, isso gera briga ou diálogo, dependendo da maturidade do casal. Na política, isso gera eleição ou derrota.

 

O filtro que você não vê

 

A comunicação política usa enquadramento o tempo todo. Quando a prefeitura posta "Inauguramos 3 creches este ano", está escolhendo uma moldura. Quando a oposição responde "Faltam 15 creches para zerar a fila", está escolhendo outra. O fato é o mesmo. A percepção, não.

 

Seu trabalho como cidadão é simples: desconfiar da moldura.

 

Não significa ser cínico. Significa perguntar: o que não está aparecendo nesse recorte? Quem se beneficia dessa narrativa? Qual seria a moldura oposta?

 

Palavras bonitas se gastam quando a prática não acompanha. Tem gente que fala em amor e cuidado pela cidade enquanto torce para ela piorar, porque no caos, certos negócios prosperam. Amor que cobra ingresso. Cuidado que depende de patrocínio.

 

Tem gente que orienta voto alheio, distribui santinho, exige lealdade política, mas nunca precisou de UBS, nunca matriculou filho em escola pública. O máximo que espera do município é um Refis bem negociado. Liderança que serve ao CNPJ, não ao CPF.

 

A biografia não mente

 

Trabalhando com gestões municipais, aprendi a identificar padrões. E uma coisa se repetiu em todos os casos: quem não resolve a própria vida não vai resolver a de uma cidade.

 

Coerência não surge na posse. Caráter não se desenvolve por decreto. A cadeira de prefeito só amplifica o que já existia. É um espelho com aumento.

 

O melhor previsor de um mandato é olhar pra trás. Como essa pessoa conduziu os próprios compromissos? Como trata quem não pode retribuir? O que fez quando achou que ninguém estava vendo?

 

O passado não mente. A moldura, às vezes, sim.

 

Três perguntas antes de acreditar

 

Da próxima vez que um político te apresentar uma narrativa, faça três perguntas:

 

Primeira: o que está fora dessa moldura? Toda comunicação escolhe o que mostrar. O que foi deixado de fora?

 

Segunda: quem ganha com essa versão? Siga o benefício. Se a narrativa favorece sempre o mesmo grupo, desconfie.

 

Terceira: a biografia confirma o discurso? Promessa é moldura. Biografia é fato. Compare as duas.

 

O ano que antecede a escolha

 

2025 não é ano para esquecer. É ano para arquivar.

 

Arquivar nomes. Arquivar alianças. Arquivar as molduras que tentaram vender e compará-las com a realidade que veio depois.

 

Porque 2026 vem aí. Os mesmos rostos vão reaparecer. As mesmas palavras vão ser recicladas: amor, cuidado, compromisso, mudança. Tudo embalado em jingles novos e filtros de rede social.

 

E quando isso acontecer, você vai ter duas opções: acreditar na moldura ou lembrar da biografia.

 

Promessa de político tem validade de quatro anos. Memória de cidadão deveria durar mais.

 

Jonathas Magalhães é publicitário, especialista em comunicação pública há 25 anos e fundador da Pública On. Acredita que política sem proximidade não é política — é administração à distância.

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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