Por Reinaldo Chelli
Sêneca, filósofo romano do século I e um dos principais nomes do estoicismo, escreveu um texto que atravessou os séculos sem perder a capacidade de provocar: Sobre a brevidade da vida. Nele, afirma algo desconcertante: a vida não é curta por natureza. Ela só parece curta porque desperdiçamos o tempo que nos é dado.
O estoicismo, corrente filosófica da qual Sêneca faz parte, defendia que viver bem depende menos das circunstâncias externas e mais do modo como lidamos com elas. Para essa filosofia, não é a falta de tempo que empobrece a vida, mas a dispersão: entregar os dias a preocupações inúteis, ambições sem fim e ocupações que não escolhemos de forma consciente. Quem vive assim, diz Sêneca, não percebe o tempo passar — até que ele acaba.
A tese é forte, mas precisa de um ajuste importante. Para a maioria das pessoas, o tempo não se esvai por descuido moral, mas por necessidade. Trabalha-se para sobreviver, corre-se para sustentar a família, cumprir obrigações, enfrentar imprevistos. Nesses casos, a vida não parece curta porque foi desperdiçada, mas porque foi exigente. Aplicar a crítica de Sêneca a todos, sem distinção, seria injusto.
Ainda assim, o núcleo do argumento resiste. Sêneca não está falando sobretudo de quem luta para sobreviver, mas de quem já poderia escolher melhor e não escolhe. Gente que continua vivendo em permanente agitação, mesmo quando já não precisa. Pessoas que confundem estar ocupadas com estar vivas. Aqui, a crítica segue atual: muito do tempo que se perde não é imposto pela vida, mas aceito sem reflexão.
O ponto delicado é que aproveitar o tempo, no sentido defendido por Sêneca, exige renúncia. Significa abrir mão de excessos, de certos prazeres, de estímulos intensos, ainda que raros e sedutores. O estoicismo prefere a serenidade à intensidade, o controle à entrega. Daí a impressão de que suas recomendações são duras, talvez até radicais.
Mas o caminho oposto também tem seus problemas. Mesmo deixando em aberto a questão sobre a existência de algo além da matéria — tema sobre o qual não há definição científica —, apostar tudo na busca do prazer máximo tampouco resolve. O prazer, quando vira objetivo central, tende a perder força, exigir repetição e gerar inquietação. Em vez de alongar a vida, muitas vezes a esvazia.
Entre esses dois extremos, a antiga ideia da medida continua fazendo sentido. A vida não é curta quando o tempo não é jogado fora — seja em correria inútil, seja em excessos que cobram seu preço. Aproveitar o tempo não significa viver em permanente renúncia, nem consumir todos os prazeres possíveis, mas usar os dias de modo a reduzir inquietações desnecessárias, manter alguma atenção sobre si mesmo e aceitar os bons momentos quando aparecem, sem se tornar refém deles.
Talvez seja isso que Sêneca quis dizer, no fundo: não que devamos viver menos, mas que vivamos de modo a perceber que estamos vivendo. A vida não se encurta pelos anos que faltam, mas pelo tempo que se perde sem sentido. E, nesse ponto, a pergunta continua aberta — e necessária.
Reinaldo Aparecido Chelli
Servidor público aposentado
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