Opinião

A serenidade de viver bem sem exigir respostas do universo

"Viver bem exige certa coragem para aceitar o mistério e certa delicadeza para não exigir que a vida seja mais do que pode ser"
Da Redação
11/12/2025 às 12h15
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Reinaldo Aparecido Chelli

 

As conversas entre amigos, especialmente aquelas que surgem em torno de uma mesa depois de um café ou de um almoço, frequentemente esbarram nas velhas perguntas humanas: Deus existe? Há vida após a morte? Para onde tudo segue quando termina? Que sentido tem a existência? São questões tão antigas quanto a própria espécie e que permanecem sem resposta — e provavelmente permanecerão — porque não se resolvem pela ciência.

 

Há, no entanto, um modo de olhar para esse conjunto de inquietações que raramente aparece nas discussões públicas e que merece ser lembrado: a postura da indiferença tranquila. Não se trata de desdém ou apatia, mas da percepção lúcida de que tais perguntas pertencem a um território sobre o qual nenhum indivíduo exerce controle. Por isso mesmo, não deveriam comandar a vida cotidiana com ansiedade ou temor.

 

Mesmo quando o debate gira em torno da existência de Deus, nem sempre se admite uma ideia simples: a presença ou a ausência de uma divindade talvez altere muito pouco a maneira como cada pessoa vive. Se Deus existir, é possível que não interfira no curso natural dos acontecimentos; se não existir, a ordem do mundo seguirá operando como sempre. Em qualquer hipótese, o que cabe ao indivíduo permanece igual: viver com ética, cuidado e dignidade.

 

O mesmo raciocínio vale para a vida após a morte. Caso exista algum tipo de continuidade — outro plano, outra forma, outra experiência — é difícil imaginar que uma vida correta represente um risco. Caso nada exista, o fim será apenas retorno ao silêncio, à ausência de sensações, como um sono sem sonhos. Essa constatação simples tende a produzir certo alívio: inquietar-se com aquilo que escapa completamente ao alcance humano pouco modifica o desfecho.

 

A atenção, portanto, deve se voltar ao que está ao alcance: a vida concreta. Há rotinas, responsabilidades, alegrias discretas, dores inevitáveis, perdas que exigem elaboração, decisões que moldam trajetórias. É nesse terreno que as escolhas realmente importam e onde se encontra uma forma de sentido: nos vínculos, no cuidado com quem está próximo, na honestidade das pequenas atitudes, na busca possível de serenidade.

 

Nesse contexto, a ética deixa de ser obrigação pesada e funciona como bússola confiável. Em vez de depender de recompensas sobrenaturais ou de temer castigos divinos, oferece algo mais sólido: a tranquilidade de consciência proporcionada por uma conduta responsável dentro das limitações humanas. Não há transcendência nisso — e justamente por isso há beleza.

 

Talvez a maior sabedoria esteja em reconhecer que a maior parte das perguntas não encontrará resposta — e que isso não diminui o valor da existência. Viver bem exige certa coragem para aceitar o mistério e certa delicadeza para não exigir que a vida seja mais do que pode ser.

 

O resto — Deus, destino, outra vida — ocorrerá como estiver destinado. Ou simplesmente não ocorrerá. Surpreendentemente, essa constatação costuma ser suficiente para que a serenidade encontre espaço.

 

Aqueles que se dedicam, com esforço e honestidade, à arte de viver bem — tarefa simples apenas na aparência — percebem que a resposta, ou a ausência dela, pouco altera o essencial. O sentido da existência se estabelece no modo como cada pessoa conduz o breve intervalo que lhe cabe. Quando esse intervalo é marcado por responsabilidade, cuidado e ética, o que vier depois, caso venha algo, pode ser aguardado sem sobressalto.

 

A indiferença tranquila, repita-se, não significa descaso. É, antes, a liberdade de viver o presente com profundidade, sem exigir do universo respostas improváveis — e sem permitir que a falta delas roube a paz que ainda é possível construir.


Reinaldo Aparecido Chelli Procurador do Estado aposentado

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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