Por Antônio Reis (*)
O dia da mentira deveria ser antecipado para 31 de março e ter novo nome: dia da fake news. Explicando: minha geração foi adestrada nas escolas com partido de que neste dia, no ano de 1964, militares enviados por Deus, em nome da família e em defesa da Pátria, botaram os comunistas e os corruptos para correr. E mais: botando os comunas pra correr, os milicos preservaram a democracia.
Em meus primeiros anos escolares, idos de 1970, os alunos eram levados ao pátio recreativo para cantar o Hino Nacional todas as sextas-feiras após as aulas. Também havia a declamação de quadrinhas rimadas exaltando “valores patrióticos” e heróis nacionais. Fico pensando se os professores acreditavam naquelas tolices ou tinham medo de que lhes cortassem a língua.
Em 1974, nos dez anos da “revolução que salvou o Brasil”, foi uma semana de cantoria. Hino Nacional, da Independência, da Bandeira, da Proclamação da República. E se não bastasse, tinha também a ufanista “Eu te amo meu Brasil”, que o rádio e televisão despejavam na patuleia. Se hino pagasse boleto ou conquistasse reajuste salarial, minha turma estaria bonita no pedaço.
Como não há fake news que dure pra sempre, o tempo, senhor absoluto do desnude de inverdades, se encarregou de mostrar que a revolução era golpe, que comunista nenhum jamais ameaçou as instituições nacionais, que os heróis eram macunaímas (heróis sem nenhum caráter), que a democracia deles era uma ditadura, que a família brasileira estava bem, obrigado. Enfim, a história mostrou que os milicos eram santos do pau oco.
Para reforçar minha sugestão, do dia da fake news, o reboliço político que derrubou João Goulart, teria ocorrido na madrugada de 1º de abril, o dia da mentira, segundo alguns historiadores respeitáveis. Para que a quartelada não entrasse para a história como chacota, relógios foram atrasados e fatos forjados como se ocorridos no dia anterior. Como se vê, os salvadores da Pátria têm know-how histórico quando o assunto é fake news.
(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
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