A Prefeitura de Araçatuba (SP) decidiu pela suspensão da transferência de 85 animais do antigo zoológico municipal para uma entidade do Rio de Janeiro, iniciada na manhã desta terça-feira (16). A transferência de todos os animais do zoológico foi anunciada pela administração municipal no início de novembro.
Porém, quando era realizada na manhã de hoje, um grupo de manifestantes esteve no local e passou a contestar a forma que esses animais estavam sendo acondicionados para o transporte.
Vários vídeos foram divulgados nas redes sociais, mostrando jabutis já dentro de caixas plásticas, semelhantes às de supermercados, alguns sobre os outros. Os manifestantes alegam que nessas caixas deveria haver apenas um animal, mas haveria até seis deles, dividindo o mesmo espaço.
Também foram divulgadas imagens de captura de emas, que estaria sendo feita de forma irregular. O trabalho era feito por profissionais contratados pela entidade que receberia os animais e ocorria em meio aos protestos dos manifestantes, que questionavam a forma do manejo.
Grupo
No primeiro momento estava presente o biólogo Marcelo Oliveira; o membro do Comdema (Conselho Municipal de Meio Ambiente), Leo Potje, que é assessor parlamentar do vereador Luiz Boatto (Solidariedade), o qual é membro da Comissão Permanente de Meio Ambiente da Câmara; e a advogada Mariana Oliveira, que também representava o Comdema. Ela é presidente da Comissão dos Direitos dos Animais da Subseção de Araçatuba da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
O trabalho de manejo também foi acompanhado e questionado pelo vereador Ícaro Morales (Cidadania). Ele já havia comentado na sessão da Câmara na noite de segunda-feira (15), sobre a possível transferência dos animais do antigo zoológico. Quando a reportagem esteve no local, estavam presentes ainda, os vereadores Luís Boatto e Gilberto Mantovani (PSD), o Batata.
Transferência
Durante a visita ao local, a reportagem falou com o secretário municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, coronel PM da reserva Marcelo Fernando Marques, que foi comandante da Polícia Militar Ambiental.
Ele confirmou que no início de novembro teve início o processo de manejo e alocação dos animais silvestres que permanecem no antigo zoológico municipal, que fica no Bosque Municipal. O procedimento é coordenado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade e realizado em parceria com o Centro de Faunística do Estado de São Paulo.
Após os animais serem avaliados por veterinários e professores do curso de Medicina Veterinária do campus da Unesp de Araçatuba e ser atestado que estão em condições saudáveis, o município aguardava a autorização do órgão ambiental para definir o local para onde eles seriam transferidos.
“No momento em que recebemos o aval do local, que chama-se Parque das Aves Araras Azuis, do Rio de Janeiro, fizemos a autorização de transferência, de transporte ambiental, e a empresa do Rio de Janeiro contratou o transporte”, informou.
Não suporta
Marques reforçou que o antigo zoológico já não suporta mais manter os 230 animais de várias espécies e nesta terça-feira seriam transportados 85 deles para o Parque das Aves Arara Azul, que fica na rua Maria Clara, no Jardim Remanso, na cidade de Miguel Pereira, no Rio de Janeiro.
Questionado sobre a forma do manejo e do acondicionamento desses animais para o transporte, o secretário municipal de Meio Ambiente informou que diante da manifestação, ele esteve no local e foi decidido que, diante da situação, a transferência foi suspensa, atendendo aos apelos dos manifestantes.
“Entendemos que não teríamos progresso, resolvemos então recuarmos para um debate mais sensato futuramente, para que tenhamos esse manejo local”, explicou. Ainda de acordo com ele, a população é favorável ao manejo desses animais, por entenderem que o local não é propicio para mantê-los.
Custo
Ao ser questionado sobre o custo de manutenção dos animais do antigo zoológico, Marques informou que por ano a Prefeitura investe cerca de R$ 1,3 milhão por ano para mantê-los, o que corresponde a pouco mais de R$ 100 mil por mês.
Além disso, há cerca de cinco servidores que atuam no local, os quais após a conclusão da transferência, serão alocados em outras áreas da própria secretaria.
Centro de triagem
A administração municipal já havia informado que está em tratativas para implantar um Cetras (Centro de Triagem e Recepção de Animais Silvestres) na cidade.
O projeto deve ser desenvolvido em parceria com o governo do Estado para atender não apenas Araçatuba, mas toda a região administrativa, fortalecendo a política pública de proteção e reabilitação da fauna local, segundo a administração municipal.
Conselho do Meio Ambiente quer processo participativo para definir destino de animais do antigo zoológico
Entre os manifestantes que estiveram no antigo zoológico municipal de Araçatuba (SP) na manhã desta terça-feira, para protestar contra o manejo dos animais do local, estava o biólogo e membro do Comdema (Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente) de Araçatuba, Marcelo Oliveira.
Ouvido pela reportagem, ele cobrou que a Prefeitura faça um processo mais participativo para discutir o destino desses animais.
O ambientalista explicou que o assunto foi discutido na sessão da Câmara na noite de segunda-feira (15) e já havia uma reunião extraordinária do conselho agendada para quarta-feira (17) para tratar do assunto. “Mas infelizmente não deu tempo dessa reunião acontecer, porque isso aconteceu de uma forma bem rápida”, argumentou.
Segundo Oliveira, na manhã de hoje ele passou a receber mensagens informando que a transferência dos animais já havia começado e foi para o local. “Infelizmente o que a gente presenciou, foram os jabutis sendo empilhados dentro das caixas, os animais sendo pegos sem nenhum equipamento, as emas principalmente, de uma forma que a gente acredita que não seja o adequado”, informou.
Ainda de acordo com ele, para fazer o manejo desses animais havia apenas um biólogo e um ajudante. Entretanto, no entendimento de Oliveira, havia a necessidade de um veterinário acompanhar o transporte, além de não haver garantia de que esses animais iriam sobreviver a esse trajeto, que corresponde a cerca de 950 quilômetros.
Discussão
Ele informou que o Comdema espera que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade faça um processo mais participativo, para que não fique a impressão de algo sendo feito às pressas ou escondido.
“Que isso seja passado de uma forma mais clara, porque a gente tem o Conselho de Defesa dos Animais, a gente tem as entidades que desenvolvem esse trabalho em relação aos animais, a gente tem o Conselho de Defesa do Meio Ambiente, então tudo isso poderia ser feito de uma forma muito mais participativa”, comentou.
Alternativas
Ainda de acordo com o ambientalista, o pessoal que esteve no zoológico, cuja ação resultou na suspensão pelo menos temporária da transferência, em grande maioria entende que não há necessidade de levar esses animais para tão longe.
Ele informou que há projetos que podem ser desenvolvidos em Araçatuba e citou que atualmente a região do Baixo Tietê, na qual Araçatuba está inserida, está desassistida dos serviços relacionados à fauna, como um centro de triagem de animais silvestres.
A Prefeitura contratou esse serviço por meio de chamamento público na gestão passada, porém, esse contrato não foi renovado pela atual administração. Esse centro recebia principalmente os animais recolhidos pela Polícia Militar Ambiental, após serem resgatados feridos. “Esse animal ou ele volta para a natureza, e aí vai para uma soltura, ou ele precisa de fato permanecer em cativeiro”, comenta.
Obrigação
Por fim, o biólogo reforça que não se pode ter apenas uma medida fechar o zoológico e se livrar desses animais, com uma visão de que isso é um custo. Ele acrescentou que os municípios precisam, por lei, prestar esse serviço de atendimento à fauna.
“Então a gente precisa em vez de pensar o fechamento, discutir uma solução que envolva um mantenedouro de fauna. Talvez um zoológico? Mas principalmente no mínimo, um novo mantenedouro de fauna, em um local mais adequado, fora do ambiente urbano", justificou.
Particularmente, ele entende que o zoológico realmente deve ser fechado, mas que poderia ser construído um outro serviço. Uma sugestão seria a construção de um aviário no Peba (Parque Ambiental Baguaçu), para onde seriam levadas as aves que atualmente estão no zoológico.
De acordo com o ambientalista, esse espaço poderia se tornar um novo atrativo turístico. “E existem movimentos na região para ser criar mantenedouros. Então, esses animais poderiam ficar aqui na região e não passarem por esse processo tão desgastante”, finaliza.