Por Antônio Reis (*)
Não gostaria, juro que não gostaria, de começar um texto assim: “Quando pensei que já tinha visto tudo...”. É clichezão de rede social, mas, depois de muito matutar, não teve jeito. O que ainda não tinha visto? Comprar ovo de Páscoa à prestação. O preço do cacau disparou no mercado internacional, obrigando os coelhos a botarem ovos a preços de ouro. A família consome o produto num dia e passa três meses, ou mais, pagando a fatura do cartão de crédito.
Realmente, a grande sacada do capitalismo é convencer as pessoas a comprarem o que não necessitam pra pagar com o que não têm. Aí aparecem as soluções milagrosas: bancos, financeiras, cartão de crédito, PIX. O consumidor compra um ovo e paga três ou mais. Pior que beber fiado em boteco de chafarica, mas se instituição financeira pode, por que o galego dono da baiuca não?
Admito financiamento longo para pagar o que é imprescindível para o bem-estar das pessoas, como casa própria, curso universitário, carro quando necessário para o trabalho ou investimento em atividade profissional sólida. Parcelamento, longo ou não, apenas em situações extremas ou que se justifiquem, observada a capacidade de pagamento do tomador do empréstimo. Pegar dinheiro do mercado financeiro para adquirir supérfluos ou manter aparências é uma aventura que pode durar, ou custar, uma vida.
Penso que comprar a prazo é vício, difícil de ser vencido como outros que se apresentam com mais nitidez. E como todos os vícios, rende lucro a alguém. Talvez esse vício seja consequência do consumo desenfreado (comprar muitas coisas ao mesmo tempo) e a “solução” passa pelo cartão de crédito ou PIX, que vieram substituir o crediário, a nota promissória e os fiados anotados nas cadernetas de bolso.
Há pouco, comprei um livro numa loja virtual por R$ 46,57 à vista, mas as opções de pagamento iam a até 12 meses com parcelas de R$ 4,30, o que totalizava R$ 51,60. Fico pensando o que levaria um consumidor a passar um ano pagando aquele valorzinho? Desemprego? Extrema vulnerabilidade? Vício.
Sou um consumidor chato, íngua mesmo, carne de pescoço. Deixo passar as datas festivas para aproveitar as promoções. Comparo preços, marcas, pesos, datas de vencimento, aparência do produto. Fujo de parcelamento, financiamento, empréstimo, fiado e ofertas milagrosas.
Por outro lado, como simpatizante da economia solidária, sugiro a quem anda sem dinheiro (ou precisa economizar para o IPVA e IPTU), que valorize a galera que faz ovos de chocolate artesanais, em casa. De minha parte, que não como doce, a grana para o vinho e o bacalhau já está garantida.
(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
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