Cotidiano

Animais mortos deixados em cruzamento no Concórdia incomoda moradores

Galinhas e bode foram recolhidos pelo CCZ; representante de religião de matrizes africanas explica que tal prática feita por desconhecimento prejudica a luta pelos direito de liberdade de culto
Lázaro Jr.
03/02/2026 às 19h47
Animais mortos foram deixados em cruzamento no bairro Concórdia (Foto: Divulgação) Animais mortos foram deixados em cruzamento no bairro Concórdia (Foto: Divulgação)

O abandono de várias galinhas e de um bode mortos, em um cruzamento no bairro Concórdia, em Araçatuba (SP), após a realização aparentemente de um ritual religioso na madrugada desta terça-feira (3), causou incômodo em moradores nas imediações.

 

Logo no início da manhã a reportagem recebeu fotos e também um vídeo de um morador nas imediações, questionando tal prática, feita em um local próximo a dois condomínios de apartamentos, com grande circulação de pessoas.

 

Nas imagens feitas por ele, é possível ver que há várias galinhas mortas, uma delas jogada no asfalto e as demais sobre um tecido vermelho, junto com o ovino, que está com o pescoço cortado. Um dos questionamentos feito pelo morador, que acionou o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses), foi sobre possível maus-tratos a esses animais.

 

Liberdade de culto

 

A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Prefeitura, que confirmou que equipe do CCZ foi acionada e fez o recolhimento dos animais mortos. Sobre possível crime de maus-tratos questionado pelo morador, o município explicou que pela Constituição, os cultos não podem ser enquadrados como maus-tratos. “A liberdade de culto é protegida”, explica.

 

Ainda de acordo com o que foi informado, não cabe por parte da Prefeitura, nenhuma outra providência além de recolher os animais. "A Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias", reforça.

 

Desconhecimento

 

A reportagem também conversou com Eliandra Regina Soleira Barreto, que é ativista, arte-educadora e fundadora/coordenadora do Centro Cultural Obadará Africanidade, que explicou que um ritual de sacralização dos animais não é um sacrifício, como é considerado por muitas pessoas por preconceito, o que gera o racismo contra as religiões de matrizes africanas. “A satanização dos cultos afro-brasileiros vem sendo trabalhada há mais de 300 anos”, explica Eliandra.

 

Ela esclarece que a oferenda de animais é uma prática realizada inclusive pelos Judeus e nos rituais que são realizados nos terreiros de Candomblé, tudo o que ofertado é aproveitado. “Quando se oferece um animal às divindades, irão se alimentar com ele”, explica.

 

Segundo Eliandra, até mesmo o couro e o chifre, quando há, são aproveitados para a produção de atabaques, por exemplo. Por isso, ela considera que por desconhecimento ou descuido, esses animais foram deixados na via pública, em local que não poderiam ser absorvidos pela natureza.

 

“Para nós, tudo o que se faz sobre oferenda, deve ser descartado ou oferendado à natureza. Oferendar ao asfalto é desperdício de alimentos sagrados, pois o asfalto não irá consumi-los”, alerta.

 

Conscientização

 

Por fim, Eliandra informa que o Centro Cultural Obadará Africanidade desenvolve um trabalho de conscientização para orientar que nos rituais, se evite o uso de materiais não consumíveis, como copos e pratos de vidro, por exemplo, pois o objetivo é alimentar a própria terra como solo sagrado e não causar poluição.

 

“Expor oferenda ou ritualística de forma equivocada, volta de forma negativa para nós, que lutamos pelos direitos de liberdade de culto”, finaliza.

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